Panorâmica Social

Análise social crítica sob um viés de esquerda

13 de setembro de 2016

Cunha afastado em mais um show de hipocrisia da Câmara

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Em questão de poucos meses, a Câmara dos Deputados foi capaz de nos brindar com dois episódios repletos de completa hipocrisia teatral. A primeira se deu em abril, no processo de votação do Impeachment da presidenta Dilma. Sob as mais estapafúrdias alegações, em nome de deus, da família e até pela oportunidade assumida de tirar o PT do poder — não pela via eleitoral, como deveria ser — deputados ignoraram as acusações formais e foram ao microfone exibir à nação um show de pantomima burlesca.

Ontem (12-09), quase cinco meses depois, o então presidente da Câmara por ocasião da votação do Impeachment foi, ele próprio, colocado em julgamento pelos seus ex-colegas e sob o completo silêncio de aliados, em mais uma notória demonstração de hipocrisia: o antes todo poderoso Eduardo Cunha foi defenestrado da Câmara, condenado por 450 votos a 10, por quebra de decoro. Uma derrota arrasadora, com quase 200 votos a mais do que o necessário para a condenação.

Eduardo Cunha tem uma longa lista de mal feitos, acusações, denúncias e suspeitas que vêm desde a época em que presidia a extinta Telerj, no Rio de Janeiro. O jornal El País chega a enumerar nada menos do que vinte casos desse tipo, que vão desde o recebimento de propina na construção do Porto Maravilha, abuso de poder, lavagem de dinheiro até chegar em corrupção.

Cunha foi tolerado todos esses anos na política. Mas agora, tal qual o mafioso Al Capone, preso por sonegação de impostos nos Estados Unidos, foi pego também por um crime menor: mentir na CPI da Petrobras. Por que só agora?

Porque os golpistas que usurparam o poder no governo federal já tinham conseguido o que queriam do nobre deputado: que ele colocasse em votação o processo de Impeachment e permitisse todo o circo que levou até o impedimento da presidenta Dilma. A partir desse momento, Cunha se tornou não apenas dispensável, mas também um incômodo. Conhecido chantagista, iria emperrar as votações da Câmara no governo Temer como fizera no governo Dilma. Além disso, sua figura mais do que repudiada pela opinião pública seria apenas um fator de desgaste ao novo governo, associado ao golpismo parlamentar. Melhor solução encontrada: cai a Dilma, cai o seu algoz, e o governo Temer tem caminho livre para negociar no Congresso.

Algumas pessoas estão com esperanças de que, agora, fora do poder, Cunha “leve consigo mais uns 50”, botando pra fora aquilo que sabe. Collor não fez isso, Cunha não fará. Ambos têm amor à própria vida, e também a das suas famílias, e não vão acusar ninguém, até porque todos já vimos como a verdade é facilmente manipulável ao bel prazer dos poderosos nas instituições republicanas brasileiras. Talvez só fosse piorar as coisas. Cunha “ameaça” contar tudo em livro, mas essa forma de divulgação já mostrou que não repercute. Se a Privataria Tucana, um compêndio muito bem documentado sobre os crimes do PSDB na era das privatizações não deu em nada, o que dirá acusações sem provas de um deputado afastado em busca de revanche. Talvez uma entrevista-bomba na Folha de São Paulo ou numa revista semanal, como fizeram Pedro Collor e Roberto Jefferson tivesse mais impacto nesse momento, mas certamente não vai ocorrer.

Por fim, é necessário acabar com as doces esperanças de que a condenação de Cunha representa um sinal de mudanças na política. Essa mesma Câmara dos deputados reúne o que se considera a pior legislatura desde a época da ditadura militar, e se Cunha caiu não foi por um surto de moralidade dos nobres deputados. Tal qual o episódio histórico da Inconfidência Mineira — inclusive lembrado por um dos dois deputados que se prestaram a defender Eduardo Cunha — em que jogaram Tiradentes na fogueira como um ato da mais abjeta traição, Cunha foi vítima da deslealdade daqueles que até ontem o defendiam com interesses políticos, como os deputados do DEM e do PSDB.

Por vias tortas, atendeu-se um clamor da população. Outro clamor que cresce bastante nas ruas é o Fora Temer. O atual presidente da Câmara, o inepto Rodrigo Maia, tem em mãos, por decisão do STF, o pedido de votação do Impeachment de Temer. Quem aposta o que irá acontecer? 

3 de setembro de 2016

Quando o “esquerdismo” e a revolução de mentira se equivalem

Esquerdismo

Depois da queda do governo Dilma, setores progressistas do antigo governo não aproveitam a oportunidade para uma devida autocrítica. Ao invés disso, governistas expulsos do poder procuram bodes expiatórios para livrar-se de toda a responsabilidade pela condução do desastroso mandato da presidenta impedida.

E um dos alvos dos ex-governistas, através do seu site Portal Vermelho, por exemplo, são os chamados “esquerdistas”, aqueles que Lênin já havia denunciado como a serviço da reação e da burguesia, identificados, com toda a justiça, com os trotskistas.

Segundo Luciano Rezende, Engenheiro Agrônomo, mestre em Entomologia e doutor em Fitotecnia (Melhoramento Genético de Plantas) e também Professor do Instituto Federal Fluminense (IFF) em artigo naquele portal, os esquerdistas, identificados sem critério com os partidos de esquerda em geral, fizeram o trabalho sujo de desestabilização do governo Dilma, através de protestos, cobranças e greves, e, após a queda do governo, teriam sumido, pois já teriam cumprido seu papel – ou seja, de quinta-coluna em favor dos reacionários.

Mas existe alguns detalhes na crítica ressentida do agrônomo que merecem ser questionados.

Primeiro, não é verdade que os protestos das esquerdas contra esta estranha conjuntura tenham cessado no momento do Impeachment. Universitários, trabalhadores e todos aqueles que gritaram “Fora Todos” não estão sumidos como alega o professor; estão e estarão nas ruas nos próximos dias, cada vez mais, exigindo a saída do governo usurpador e corrupto de Michel Temer. Ou será que o autor do texto não acompanhou os protestos recentes em São Paulo, que infelizmente tiveram como saldo trágico a cegueira de uma jovem manifestante pela bala de borracha da polícia? Os partidos, os sindicatos e os movimentos de esquerda continuarão nas ruas, apesar de realmente haver uma parcela trotskista na esquerda brasileira que merece ser combatida;

Segundo, não é justo identificar o PSOL como um desses atores “esquerdistas”. O partido vem defendendo, ao longo de todo o processo de Impeachment, que se trata de um golpe. Tem atuado em defesa da democracia. Não se pode confundir as críticas justas ao governo Dilma com um suposto esquerdismo trotskista, erro cabal cometido pelos governistas do PT e do PCdoB que ajudou a isolar cada vez mais os verdadeiros socialistas do governo, aqueles que poderiam engrossar as fileiras da defesa do mandato petista, se não tivessem sido enganados;

E por fim, as críticas ao governo se justificaram na medida em que os governos petistas no poder abandonaram os ideais que os elegeram. Não há a menor diferença entre esquerdistas a serviço da burguesia e um governo que esquece seu papel reformista, pra não dizer revolucionário, quando chega ao poder. Um governo que se alia ao que há de pior no reacionarismo conservador brasileiro, colocando-se ao seu serviço, não pode acusar os partidos de esquerda de fazer o papel de aliados das classes dominantes. Não cola. A realidade é implacável.

Os esquerdistas foram devidamente identificados e rechaçados porque combatiam, no passado, um governo legitimamente estabelecido pela revolução russa e conduzido contra todas as forças imperialistas do ocidente pelas mãos de Josef Stalin. Governo que, sem dúvida, revolucionou o que entendemos por representatividade do povo no poder. Será que os ex-governistas querem comparar este tipo de atuação com o que de fato fizeram durante os 14 anos que estiveram no poder? Vão alegar que o Brasil caminhava para o socialismo pelas mãos do PT, mas que foram sabotados pelos esquerdistas?

O PT cometeu um verdadeiro estelionato eleitoral desde 2002, quando decidiu que iria governar com os derrotados nas urnas, e assim procedeu até o último momento. No seu depoimento perante o Senado na defesa contra o Impeachment recentemente, Dilma reconheceu que a crise econômica mundial chegara ao país no final de 2014 com a queda das commodities, alegando que as políticas de proteção social tinham se esgotado. Não obstante, toda a sua propaganda eleitoral foi baseada em pautas legitimamente de esquerda, embora ela já tivesse em mente que aplicaria receitas de contenção e austeridade neoliberais assim que assumisse a faixa presidencial. Foi o que o professor Vladimir Safatle chamou de esquerda sazonal e sua “estação das cerejas vermelhas”: o hábito petista de apresentar programas progressistas que são desfeitos a partir da chegada ao poder.

Tendo em vista estes e outros tantos equívocos dos governos petistas, é justo alegar que a queda foi causada por uma suposta agitação esquerdista trotskista, mal definida, a serviço da burguesia, quando não existiu governo mais subserviente aos interesses do grande capital quanto o dos petistas? Governos em que bancos lucraram oito vezes mais do que na era FHC, para se ter uma ideia. Governos que não tocaram em privilégios, não regularam a mídia, não fizeram reforma agrária, não taxaram grandes fortunas, que mantiveram juros altos em favor dos rentistas mesmo em detrimento da economia…

Então por favor, uma autocrítica às vezes cai muito bem, como aliás também nos mostrou Lênin.

17 de agosto de 2016

Carta de Dilma: rendição final aos algozes

Quando pretendemos mandar uma mensagem, devemos ter em mente se o nosso remetente é capaz de ponderar sobre os pontos que levantamos e, se for o caso, repensar suas ideias concebidas. Propostas de diálogo ou apelo à razão e à ponderação devem ser remetidas para quem possui estas capacidades. Ou então estamos apenas perdendo tempo, jogando palavras ao vento. Jamais, por exemplo, poderíamos lançar uma proposta de diálogo com um grupo extremista como o Estado Islâmico. Com este tipo de antagonista, o combate é a única solução que existe.

A presidente afastada Dilma lançou ontem (17 de agosto) a sua carta aberta aos senadores, seus algozes no processo de Impeachment. Qualquer analista político iniciante sabe que a parada está perdida. E ainda assim, Dilma Rousseff lançou apelos inócuos de “união de forças” pela democracia, “concentração de esforços” pela Reforma Política, “pacto nacional”, e outras baboseiras pseudo-republicanas, como se estivesse lidando com nobres e leais estadistas que, em vez de golpistas usurpadores convictos a serviço do capitalismo e da manutenção do status quo, fossem homens sensatos em busca da justiça.

Ora bolas, desde o primeiro dia do seu segundo mandato, em que conspiradores da política tramavam pela sua queda, Dilma erra em propor pacto e união com essa escória que ela, inclusive, trouxe para dentro do seu próprio governo, e continua errando até o final, quando continua propondo acordos com essa gente e se rende aos golpistas, insinuando aceitar novas eleições como uma saída menos pior para o seu impedimento. Como se Jango tivesse aceito quieto a manobra do parlamentarismo que lhe tirava das mãos o poder, e não lutado todos os dias até conseguir de volta os plenos poderes do seu mandato.

Já tendo em vista a derrota iminente e inexorável, a presidenta perdeu uma tremenda oportunidade de transformar sua cartinha de resignação em um manifesto-bomba com o peso (guardadas as proporções) da carta-testamento de Getúlio, que teve a força de paralisar os golpistas de sua época por 10 anos. Claro que o suicídio do ex-presidente teve um papel importante neste impacto, mas com referência apenas ao conteúdo da mensagem, a diferença da postura é colossal. Imagina se Getúlio iria propor “diálogo, união de forças e pacto” com figuras como Carlos Lacerda…

No mais, fica a triste despedida de uma mulher que outrora fora valente ao enfrentar seus algozes da ditadura, mas que hoje sucumbe com tanta facilidade perante inimigos mais indignos, ratos da política que nem respeito merecem.

9 de agosto de 2016

Em meio às Olimpíadas, Dilma tem seu destino em jogo

Processo de Dilma no Senado

Alguém ainda se lembra de que a presidente Dilma Rousseff está em meio a um processo de Impeachment que ainda acontece no Senado? E que, na precisa data de hoje, terá seu destino decidido?

Difícil, quando levamos em conta que os boletins da Olimpíada no Rio de Janeiro tomam conta do noticiário. E também porque, tirando ainda alguns crédulos da base “governista” (a favor, portanto, de Dilma, já que ela ainda não foi afastada definitivamente do governo) no Congresso, pouca gente crê num milagre da salvação. Porque Dilma está tão envolvida em casos indefensáveis e definitivos de crime de responsabilidade que sua situação é grave? Não, longe disso. Mas por uma razão sórdida que é a característica dos sistemas políticos burgueses: pouco importa a verdade, quando os motivos lhes favorecem.

O Senado é uma instituição remota na política, remete aos tempos da Roma Antiga, quando a Casa era frequentada pela alta cúpula da elite social romana: generais, comerciantes ricos e latifundiários. Quando a burguesia fez a sua revolução nos séculos XVIII e XIX, a República romana e seu elitismo lhe pareceu ideal para que ela, que já tinha o poder econômico, pudesse exercer também o político —arrancando-o das mãos da nobreza ao mesmo tempo que impedia a ascensão das classes subalternas. E este modelo prevalece até hoje nas democracias republicanas do ocidente, embora oculto por eufemismos de igualdade e democracia.

No Brasil, não é diferente. Mais de dois mil anos depois da República romana, o senado representa as mesmas características do passado: homens velhos, brancos, donos de terras, “coronéis”, empresários… Ou seja, a elite, ou seus representantes, que não tem outro objetivo senão legislar em causa própria.

Com base no velho e manjado moralismo conservador — essa praga reacionária sempre evocada de tempos em tempos no Brasil para a defesa dos interesses das elites e classes médias abastadas —, criou-se mais uma vez a campanha contra a corrupção, personificada em tudo que fosse vermelho na política. Só faltou Aécio Neves evocar a vassoura “pra varrer a bandalheira” como na moralista campanha de Jânio Quadros nos anos 60.

E essa elite, que no nosso país é uma das mais tacanhas e perversas, cansou de perder quatro eleições seguidas, quando seus candidatos favoritos foram derrotados pelo PT nas urnas.

E, assim, criou-se o factoide, que muita gente inocente caiu feito pato, de que, políticos e empresários, há décadas envolvidos em orgias de corrupção entre Estado e mercado, estavam, eles próprios, lutando para moralizar a política nacional. A grande novidade neste golpe que já tinha a velha mídia aliada como sempre, foi a saída da bota dos militares de cena e a entrada da toga e do martelo dos juízes, que agora cumprem um papel não de julgadores, mas de acusadores.

Com base em artifícios jurídicos frágeis, argumentos ridículos, contradições, falta de observação em precedentes, julgou-se o Impeachment da presidente da República, afastada, desde então, do seu cargo.

E agora o Senado vota pela continuidade do processo, por maioria simples, se houver o quórum mínimo de 41 presentes. Se o Senado fosse a instituição que se alega que seja, detentora da justiça, da imparcialidade e do equilíbrio, coisas que naturalmente faltam na Câmara de Deputados, como pudemos assistir naquele show bizarro e constrangedor da votação do Impeachment, poderíamos contar com chances de vitória da verdade e da legalidade. Juristas do mundo inteiro já se manifestaram sobre a iniquidade deste processo absurdo. Chega a ser uma vergonha, um golpe branco disfarçado de legal porque cita um artigo da lei aqui, um parágrafo ali, sem no entanto nenhuma substância. Mas este é o Senado classista, dos empresários, dos latifundiários, ou dos seus testas de ferro, não importa. O que importa é afastar do poder um governo que tenha feito o mínimo dos mínimos pela classe dos despossuídos, dos pobres e das classes médias baixas. Isso sim que é um absurdo para eles.

Em momentos de crise, chega de redistribuir renda, eles pensam. Somos um país dos mais desiguais do planeta, como uma pequena ilha de riqueza encravada num mar de pobreza, ignorância e miséria, mas não importa: este é o país que eles construíram, e que bom que seja assim.

O que é a farsa de um golpe, denunciada no mundo inteiro, diante da garantia de poder manter seus altos privilégios materiais e de poder?

Um dia, aquela (mal)dita “Casa do Povo” ainda há de cair. 

8 de agosto de 2016

Parabéns Rafaela Silva

Rafaela Silva é ouro

Que o nosso país é injusto e trata com desigualdade sua população altamente estratificada, todos nós sabemos, mas quando há um evento como as Olimpíadas, em que os investimentos no esporte se refletem claramente no quadro de medalhas, as coisas ficam ainda mais evidentes.

Rafaela Silva, moradora da comunidade da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, acaba de ganhar sua primeira medalha de ouro no judô. Negra, pobre e favelada, sem condições financeiras de se preparar enquanto atleta de alto rendimento, apesar de ser um talento nato, podemos imaginar o que essa menina teve que enfrentar para chegar hoje no mais alto ponto do pódio. Se não fosse pelo amor ao esporte e o altruísmo de Flávio Canto, que criou o instituto Reação, que dá oportunidades a pessoas pobres de seguirem no esporte, sabe-se lá o que Rafaela estaria fazendo neste momento, em vez de cantando o hino nacional com a medalha de ouro no peito.

Quantas outras Rafaelas não estarão aí, perdidas, sem chance por este enorme país, simplesmente porque o Brasil não conta com um projeto sério de massificação do esporte?

Não faz muito tempo e o ex-jogador de futebol Petkovic surpreendeu alguns brasileiros desinformados, quando respondeu se teria passado muita dificuldade na ex-Iugoslávia socialista. Com a naturalidade de sempre, “Pet” afirmou que não, muito pelo contrário. Lembrava que na infância, praticou diversos esportes, como vôlei, handebol, basquete, mas se destacou mesmo no futebol. O esporte sempre foi levado a sério nos países socialistas, e a parte secundária disso é o reflexo no quadro de medalhas das Olimpíadas; o principal, é que o esporte forma cidadãos como Petkovic, que chega no Brasil e impressiona a todos com sua inteligência, sua formação e seu talento em primeiro lugar.

Enquanto o país inteiro se volta para a expectativa da primeira medalha de ouro do futebol masculino, apoiando jogadores que, embora, de fato, tenham vindo das partes mais pobres da nossa sociedade, mas que hoje já estão com a vida ganha e se dão ao luxo de achar enfadonho representar o Brasil, existem outras histórias de superação, de luta e de amor ao esporte esperando para serem reveladas, como a de Rafaela.

Por isso que eu não tenho o menor pudor de dizer — e, aliás, quem me acompanha sabe que não é de hoje —: dane-se a seleção, seus torcedores coxinhas, seus dirigentes corruptos, o apoio da máfia de Rede Globo, e as empresas que exploram a paixão do povo pelo futebol: viva as Rafaelas da vida, que são verdadeiras heroínas do esporte e da sobrevivência neste país injusto com seus pobres. Viva Flávio Canto, que acredita nas pessoas, que investe do próprio bolso, e faz o que em outros países seria um projeto de país, porque o esporte forma o caráter e a consciência do cidadão muito mais do que estas pessoas resignadas que dizem “graças a deus” quando ganham um décimo lugar.

14 de julho de 2016

Hoje a direita se acha forte. Mas amanhã há de ser outro dia…

Para aqueles que entraram na conversa pós-moderna, a realidade brasileira prova a cada dia que sim, existe direita e esquerda na política, e que as radicalizações dos setores mais reacionários do espectro direitista afloram ainda um outro conceito que andava meio esquecido: o da luta de classes.

“A cadela do fascismo está sempre no cio”, é uma das frases famosas do genial Berthold Brecht que ganharam popularidade nos tempos de internet. E reflete a mais pura realidade. Os setores mais conservadores, autoritários e reacionários da direita sempre farejam oportunidades de colocar seus preconceitos, sua violência e o seu modo de pensar pra fora, de forma impositiva. E o momento brasileiro é o ideal para isso, segundo pensam.

Com os pilares da democracia enfraquecidos, com as esquerdas acuadas em torno de velhos preconceitos recuperados da época da Guerra Fria, alguns movimentos como o MBL, financiados por partidos de direita e empresários estadunidenses, políticos que fazem o nome defendendo conceitos retrógrados e uma classe média sempre reacionária propõem agendas bizarras ao país.

A área da Educação parece ser o setor preferido dos seus ataques. Depois de chegar ao governo de forma ilegítima. golpista e sem votos, o vice presidente trouxe no seu staff de governo alguns destes elementos. Primeiro, o ministro da Educação que recebeu das mãos de um dos maiores trogloditas da direita, sugestões que vão ao encontro do movimento que se denomina “Escola Sem Partido”. Nem Hitler ou Mussolini poderiam imaginar algo dessa estupidez colossal. E depois, algum funcionário de dentro do governo, do Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO) teve a petulância de alterar, de forma vil, a biografia do Wikipédia de um dos mais citados, conhecidos e renomados educadores brasileiros. Paulo Freire, que lutou a vida inteira para educar e libertar os oprimidos e cuidar para que eles não repetissem a crueldade dos opressores, foi acusado de ser o pai da “doutrinação marxista” nas escolas, além de ser o responsável por uma legislação que resultou num ensino “atrasado, doutrinário e fraco”. 

Hoje a direita no Brasil se acha forte o suficiente para atropelar a democracia, desrespeitar as minorias, os partidos de oposição, dar golpes de Estado disfarçados de Impeachment legal, perseguir pessoas de esquerda, e etc.  Mas a história mostra que toda ação gera uma reação. A Segunda Guerra Mundial é o exemplo clássico, quando o líder dos nazifascistas do mundo provocou a União Soviética e teve que fugir com o rabo entre as pernas, se borrar nas calças e se matar com medo de ser capturado pelo Exército Vermelho, como seria.

Mas no Brasil mesmo, temos um exemplo muito interessante: o episódio que ficou conhecido como “A revoada dos galinhas-verdes”.

Plínio Salgado era um tupiniquim brasileiro com ilusões de arianismo. Fundou um partido fascista no começo dos anos trinta que era uma cópia caricaturada do partido nazista alemão. Em 1934, juntou de 5 a 10 mil simpatizantes do movimento fascista na Praça da Sé, em São Paulo, para, como sempre, (tentar) imitar a “Marcha sobre Roma”, que levara Mussolini ao poder na Itália.

No entanto, não contavam com a mobilização das esquerdas para enfrentá-los. Anarquistas, socialistas, comunistas e até trotskistas, membros da Frente Única Antifascista, se posicionaram de modo a impedir a manifestação fascista. Depois de um grande confronto que deixou dezenas de feridos e seis mortos, os milhares de fascistas debandaram, jogaram fora suas camisas verdes e saíram correndo. Correndo, ou “voando” como ironizou o famoso Barão de Itararé. Desde então o episódio ficou conhecido como a “Revoada dos galinhas-verdes”.

Duas lições que podemos tirar destes episódios: a primeira, é que quanto mais a direita bota as “asas” de fora, mais a esquerda se reúne, se organiza e reage. E segunda, a democracia é um regime de poder que, apesar de representar a vontade da maioria, deve zelar, principalmente, pela proteção e defesa dos direitos das minorias. Pois se hoje a direita se acha fortalecida a ponto de impor seus conceitos retrógrados a todo o país como um trator, é porque passa por cima da legislação e dos direitos de terceiros. No entanto, como diz a famosa canção de Chico Buarque, “Amanhã vai ser outro dia”. E então, quando neste dia vivenciarmos um crescimento dos ideais de esquerda e de radicalizações, viveremos um momento em que as esquerdas, chegando ao poder, imporão o castigo e a retaliação? Depois não vão pedir clemência, quando, quem sabe hipoteticamente falando, nossas futuras polícias revolucionárias derem tiros, bombas de efeito moral  e efetuarem prisões arbitrárias contra os direitistas e as classes médias que saírem às ruas pedindo…. “democracia”… Do mesmo modo que a polícia burguesa militarizada hoje esmaga todo tipo de manifestação livre das esquerdas.

Também não vão reclamar quando nossos membros de esquerda apoiarem as retaliações dos umbandistas mais radicais, que colocarão abaixo vossas igrejas da intolerância, como hoje os evangélicos atacam terreiros de umbanda impunemente. Quem bateu ontem esquece, mas quem apanhou não.

Quando professores, médicos e funcionários públicos com visões direitistas que manifestarem opinião contrária ao pensamento estabelecido sofrerem retaliações e perseguições, quem poderá reclamar? Quando hoje aplaudem quem é perseguido por expor opinião em defesa de uma outra visão de esquerda.

Ou somos todos democráticos e respeitamos as diferenças, ou vamos para uma batalha campal para impor cada um o seu pensamento radical?

Lembrem Hitler, que se matou pra não ser humilhado como o outro fascista, Mussolini, que terminou perdurado de cabeça pra baixo numa ponte como castigo. Ou lembrem dos integralistas tupiniquins debandando e revoando pela Praça da Sé. Cadelas ou galinhas, os fascistas não passarão jamais.

11 de julho de 2016

Por que o brasileiro odeia tanto o Brasil

brasileiro colonizado

A crise política e econômica atual atacou a autoestima do brasileiro e fez ressurgir um dos seus hábitos preferidos: falar mal do país e de si mesmo. Basta uma simples olhada nas conversas de rua, de botequins ou de qualquer lugar onde o assunto seja o Brasil, e uma enxurrada de falácias surgirá na ponta das línguas. E o pior, com aquele balanço de cabeça e aquela risada de concordância dos ouvintes. Falar mal do país é quase um esporte nacional, assunto preferido junto com enredos de novelas e campeonatos de futebol. Mas por que temos esse costume de colocar pra baixo a nós mesmos, e que consequências isso acarreta em nossas vidas?

Pra entender essa questão, precisamos recorrer a alguns ilustres pensadores. O primeiro deles, o alemão Karl Marx, que dedicou uma parte de sua brilhante carreira no desvendar da ideologia em sua obra A Ideologia Alemã (1846), ou seja, procurou entender os meandros da produção de ideias, de representações e da consciência. Segundo ele, o pensamento da classe dominante é, em todas as épocas, o pensamento dominante. Com base nesta afirmação, já temos uma pista de onde procurar a fonte daquelas afirmações abjetas que escutamos por aí através do senso comum. Mas o que é o senso comum?

Quem nos responde essa é o sociólogo brasileiro Jessé Souza, em seu livro A Tolice da Inteligência Brasileira (2015). Neste livro ele afirma que o senso comum, aquilo que as pessoas repetem como verdades nos botecos, nas filas do banco, em conversas informais ou em qualquer lugar, são versões simplificadas daquilo que é produzido nos altos estudos acadêmicos, nas redações de jornalismo, nas salas de aula e nas palestras de grandes pensadores, a maioria ligada a algum tipo de interesse comum com as mesmas classes dominantes, que financiam estas instituições.

Desta forma temos espalhadas por aí ideias preconceituosas sobre o brasileiro trabalhador, negro, pobre, a mulher, coisas como “nesse país ninguém gosta de trabalhar, só sabem ficar bebendo cerveja”, apesar do brasileiro trabalhar 44 horas semanais, em comparação com as 38 horas da Alemanha e 35 da França. Será que alemães e franceses são mais preguiçosos que nós então?

Nem no ranking de maiores bebedores de cerveja somos os maiorais. Somos apenas o décimo-sétimo em consumo por litro de cerveja, apesar de sermos o quinto país mais populoso.

Consumo de cerveja no mundo

fonte: Ranking dos países que mais bebem cerveja

Outros chegam a afirmar que o Brasil não possui uma verdadeira cultura nacional (?!!), que a nossa cultura é inferior ou emprestada dos outros. Simples assim.

O que dizer? Este pobre infeliz simplesmente não sabe o que é cultura, ou não conhece o Brasil. Ignorar tantas contribuições tipicamente brasileiras, transformações da cultura original indígena com influência da cultura negra e europeia para coisas absolutamente originais na nossa música, na nossa língua, na nossa culinária, nas artes e costumes, tantas que seria impossível de enumerar, chega a ser incrível.

Mas, lembram da nossa investigação sobre as raízes dessas ideias? Sim, as elites brasileiras, elas que são as culpadas por estes ataques à nossa autoestima. Logo elas, que devem considerar verdadeira cultura a cultura de massas pasteurizada dos Estados Unidos e seus fast-foods, seus super heróis, suas músicas comerciais e roupas padronizadas até quando se dizem fora dos padrões.

É claro que as elites brasileiras e as classes médias cooptadas odeiam o Brasil. Apesar de seu patriotismo tosco, representado pela tríade conservadora “deus, pátria e família”, que quer dizer o cristianismo como base de uma sociedade desigual e injusta acobertada sob um manto de “brasilidade” e da família tradicional burguesa, branca, cristã, onde o “chefe-de-família exerce sua autoridade descendo hierarquicamente da mulher até os filhos. Esse é o Brasil e o brasileiro dessa gente. Nesse modelo, ficam de fora as comunidades pobres, os brancos despossuídos, as mulheres das classes baixas, mães solteiras, os negros, e toda a “ralé” que é vítima dos preconceitos levantados aqui como exemplo. E como a ideologia da classe dominante é a ideologia dominante, logo vemos as próprias vítimas desses ataques fazendo coro contra si mesmos, muitas vezes sem nem perceber.

Poderíamos ligar a TV e ver um pouco dessa ideia negativa contrabalançada com as grandes realizações desse país e de seus membros. Pois acreditem, são muitas em áreas mais diversas como ciência, tecnologia e cultura. Mas a TV também reforça a ideia de um país que não dá certo, com violências e mais violências em programas policialescos especializados em violências.  Reforçam a ideia de que o brasileiro é violento por natureza, e tome mais preconceito. Para as classes dominantes, estes programas prestam um serviço maravilhoso. Pois quando se discute a solução para a violência, o que estes privilegiados propõem e que se reflete nas opiniões dos apresentadores é mais repressão, mais prisão, mais mortes, redução da maioridade, ou seja, um conjunto de fatores que só tentam remediar há pelo menos 30 anos a violência. As pessoas assistem na TV tanta violência que certamente se tornam propensas a aceitar que só mais violência acaba com a violência. Porque discutir o problema a fundo, ou seja, o fato de sermos violentos porque a distribuição de riquezas no Brasil é altamente desigual, seria prejudicial aos interesses das classes dominantes. Então de quem é a culpa da violência mesmo?

Esse post tem a única pretensão de fazer você repensar a ideia de que deu azar de nascer no Brasil. Pesquise outros países, veja se são mesmo tão melhores que nós, ou se apenas temos um conhecimento distorcido da verdade. Nos induzem a pensar que nos países lá fora não existem problemas, são maravilhosos e civilizados, e que nós somos tudo o que há de ruim na Terra.

Pensa bem, alguém pode estar querendo tirar proveito do seu desânimo.

8 de julho de 2016

Dois anos depois do 7 a 1, continuamos perdendo dentro e fora de campo

Há exatamente dois anos, os brasileiros assistiam, atônitos, o passeio dos alemães em cima da seleção brasileira de futebol: 7 a 1, num desastre só comparado com a perda da final da Copa de 50 no Maracanã.

Há um amigo que sempre diz que o futebol emula a vida, quer dizer, o mundo do futebol é um pequeno microcosmo que reproduz muitas características do macro, ou seja, da vida em si. Muitas vezes, é o futebol que influencia a nossa vida, como veremos.

Pobre futebol brasileiro

Na área do futebol, a mesma Rede Globo de Televisão, sócia e maior parceira da corrupta CBF, hipocritamente passou a clamar por mudanças no futebol brasileiro depois do desastre no Mineirão em 2014, como se não tivesse nada a ver com isso. As mesmas mudanças que os movimentos sociais já pediam muito antes da Copa no Brasil começar.

Durante o evento, porém, a emissora contribuiu para a desconcentração e o oba-oba, fazendo matérias exclusivas com os jogadores; colocando atores e figuras globais dentro da Granja Comary; eventos com patrocinadores; Luciano Huck chegando de helicóptero com os filhos durante os treinos, tudo em troca da alavancagem do apoio da população a uma seleção totalmente despreparada, tanto técnica, quanto psicologicamente.

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A Copa que derrubou o governo

Na área política, hoje podemos dizer que a derrocada do governo Dilma e a crise política que vivemos começou ali, não por causa do resultado, mas do proveito que setores mais reacionários tiraram da insatisfação popular.

Senão vejamos: antes da Copa, com o país esbanjando bilhões com empreiteiras e prefeituras enxotando de forma fascista populações inteiras de suas moradias, os legítimos movimentos sociais criticaram o governo federal, sua gastança e sua atitude. A resposta, em vez de diálogo e tentativa de solução — coisas que nunca foram o forte de Dilma Rousseff, convenhamos — foi polícia, repressão, bombas, mutilações, prisões e criminalizações de protestos.

Dilma vaiada na Copa do Mundo

E qual foi o resultado disso? Com as esquerdas neutralizadas e fora de combate, para o deleite, na época, de muitos militantes petistas que hoje encontram-se sem rumo na vida, abriu-se caminho para as classes médias mais reacionárias e os partidos de direita tomarem conta do cenário. Chegou-se ao ponto daqueles críticos bem intencionados, como nós, que queríamos uma mudança de postura do governo Dilma, estarem apanhando fora do estádio enquanto a presidenta era vaiada dentro pelos coxinhas golpistas que puderam pagar os exorbitantes e segregantes valores dos ingressos. Ali, naquele momento, a popularidade de Dilma caiu na proporção em que as classes médias botaram a cara na rua, tomando o lugar dos legítimos movimentos sociais.

Este ano, com o apoio destas mesmas classes médias reacionárias, não precisamos dizer o que aconteceu com o governo Dilma. Uma lição que o PT tomou amargamente por não ter ouvido a voz daqueles que seriam os seus apoiadores naturais, mas que ficaram com o sentimento de traição no peito. Isso quando não ficaram com sequelas pela ação violenta das polícias militares Brasil afora, apoiadas pelo então Ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, que hoje, como advogado, se desdobra para salvar a pele da Dilma dos lobos no processo de Impeachment. A vida é irônica às vezes.

Futebol emula a vida: passos pra trás

Voltando ao futebol, depois do desastre, a promessa era mudar tudo. Mas, nossos velhos dirigentes, historicamente, seja na política, seja no futebol ou seja em qualquer área, tem pavor de “revoluções” e de mudanças bruscas. A única que conseguimos de relevância não fomos nós que fizemos, mas sim o FBI, que mandou prender o então presidente José Maria Marín e deixou o atual, Marco Polo Del Nero se borrando nas calças com medo de sair do país e ser preso, de tão envolvido em suspeitas de corrupção que está. Com isso, o presidente em exercício não tem legitimidade, é um interino chamado Coronel Nunes que não apita nada, não tem poder e não pode fazer as mudanças que o futebol brasileiro exige. Digamos que seja o Michel Temer da CBF…

Passados dois anos desde o fiasco dos 7 a 1, o Brasil foi eliminado precocemente de 2 Copas Américas, mandou embora o bravo Dunga, designado para ser o técnico da “mudança” (?!), e ostenta um embaraçoso e nada digno sexto lugar nas Eliminatórias (hoje estaria eliminado pela primeira vez da Copa do Mundo).

Tanto no futebol quanto na política, aquela Copa no Brasil nos trouxe um legado simplesmente lamentável dentro e fora de campo, pois nem a CBF nem o governo Dilma foram capazes de ouvir os verdadeiros apelos da população brasileira.

E agora vem aí as Olimpíadas… “Haja coração amigo”….

6 de julho de 2016

O Brasil comprova que a democracia é tão falha quanto qualquer outro regime

Nesta última segunda-feira (4/7), o historiador Leandro Karnal, entrevistado do programa Roda Viva, lembrou uma célebre frase do famoso ex-premier britânico Winston Churchill: “a democracia é o pior dos regimes de poder, com exceção de todos os outros”. Essa frase altamente controversa tem ajudado a consolidar a ideia da democracia como valor absoluto em si, universal, que deve ser implementada em todo o mundo indefinidamente. Mas essa noção acrítica só serve para ocultar as falhas e pontos negativos da própria democracia, mesmo em comparação com outros sistemas.

O capitalismo já provou que liberdade e democracia não são condições indispensáveis ao seu desenvolvimento. Seja em sistemas monárquicos, autoritários, ditatoriais ou abertos, o capitalismo sequestra as instituições de poder, representada pelos políticos, e as usa em seu proveito. E aí está o grande problema dos sistemas políticos sob a influência livre do poder econômico: mesmo os mais repressivos, como os do Oriente Médio, que seguem a Sharia rigorosamente, tem por trás a mão do imperialismo a lhe sustentar, principalmente por causa do petróleo nestes casos. Em outros, por outras riquezas, como os diamantes africanos. Seria ilusão achar que o sistema democrático está livre de influências e de interesses do sistema financeiro nacional e internacional, que contamina as decisões políticas de um sistema que significa em tese “poder do povo”, mas que, de fato, se tornou o regime que atende interesses de empresários, banqueiros e fazendeiros.

O próprio Leandro Karnal, em sua entrevista, deu um exemplo esclarecedor sobre como os nossos representantes não representam realmente a nossa vontade, e muito menos respeitam as leis estabelecidas. Segundo ele, o que determina o processo de Impeachment de um presidente da República não é necessariamente o quanto ele violou as leis e praticou crime de responsabilidade, e sim o quanto de “apoio” ele ganhou ou perdeu no Congresso.

corrupcion

Fernando Collor perdeu apoio, e foi impedido. Em compensação, Fernando Henrique sofreu uma enxurrada de pedidos de Impeachment devido as claras e abjetas irregularidades cometidas em seus dois mandatos, e a cada um deles respondeu com “benesses” aos deputados, barrando assim as investigações. O mesmo podemos dizer de Lula. Se não contasse com uma base política forte, comprada literalmente com muito dinheiro disfarçado eufemisticamente de “governabilidade”, só o mensalão já seria motivo mais do que suficiente para um processo. Já a Dilma, que conquistou a fama de “não dialogar com o Congresso” — ou seja, não ser muito adepta de negociatas — foi perdendo todo o apoio da sua própria base, que a levou, mesmo com acusações frágeis, a sofrer um processo de Impeachment, que é sempre um ato extremo.

Como podemos então defender uma democracia dessas como o melhor dos regimes, sem perceber que com ele todo um esquema de usurpação de poder pelos interesses econômicos causa escândalos e mais escândalos de corrupção no nosso país? Mais do que isso: lá na ponta, causa miséria, falta de recursos básicos na saúde e educação, entre outros problemas. Nos falta uma cultura crítica para observar que nada é bom ou mau a priori, e inúmeros interesses estão por trás daqueles que defendem um modelo em detrimento do outro.

A democracia não é a oitava maravilha do mundo, não é o sistema perfeito, nem ideal para todos os países. É apenas mais um, e ainda por cima cheio de defeitos. Muitos países do mundo não têm um regime que passaria na chancela de democracia segundo a ideia ocidental. No entanto, muitas vezes têm mais liberdade do que nós, ótimas condições de vida, mais oportunidades, níveis quase inexistentes de desigualdade social, alta participação social na política, baixos índices de corrupção, IDH elevado…

Então por que diabos nós, que não temos nada disso, havemos de defender cegamente um regime que pra nós, representa meramente ir numa urna eletrônica de dois em dois anos, encenar de forma farsesca  uma participação politica que se resume a apertar alguns botões e depois assistir passivamente nossos “representantes” tirarem e colocarem quem eles bem quiserem no poder, não obstante nosso voto?

Democracia pode até ser funcional em muitos casos, mas sem uma reforma política que vise depurar seus desvios, não deve ser defendida de forma incondicional como vemos por aí.

3 de julho de 2016

A esquerda precisa descobrir a zona oeste do rio

Neste domingo (3/7), duas da tarde, a deputada federal e pré-candidata do PCdoB à prefeitura do Rio, Jandira Feghali, ficou de vir em Padre Miguel, bairro da zona oeste da cidade do Rio, num evento promovido pela CUT e por um coletivo de mulheres ligado ao partido. Não sei se de fato veio, pois, nunca acostumado com o mau hábito do brasileiro com relação a atrasos, cheguei no local na hora indicada, e até as 15:30h a distinta parlamentar ainda não havia chegado. Naquele momento a vontade de assistir o jogo do Flamengo falou mais alto e eu não aguentei mais esperar. Se eu soubesse o que seria o jogo, teria ficado mais um pouco…

O fato é que, com ou sem atraso, os possíveis candidatos a prefeito da cidade do Rio com características progressistas ignoram o potencial da zona oeste. Maior e mais populosa região, naturalmente também é a que concentra o maior número de eleitores.

Desde muito tempo a direita e os partidos conservadores ligados a seitas evangélicas fazem de bairros como Santa Cruz, Campo Grande, Inhoaíba, Paciência, Bangu e arredores, seus currais eleitorais. É daqui que saem os votos que elegem, por exemplo, um Eduardo Paes, um Cunha, um Pedro Paulo, um Pezão… Porque os políticos da região, geralmente de partidos nanicos que se vendem a coligações de quem paga mais — geralmente o PMDB, fenômeno que certamente se repete em diversas regiões do país — obtêm um verdadeiro monopólio da divulgação de material. Noventa e nove por cento de todos os santinhos e galhardetes apresentam um político da região numa fotomontagem ao lado de um desses citados políticos que dominam a política carioca e fluminense.

Há pelo menos 30 anos, basicamente os mesmos políticos, seus filhos e futuramente seus netos usufruem dos votos de uma população que só conhece a esquerda pelo que ouve falar na Globo, e acreditem, não são coisas boas.

É preciso penetrar de vez nos bairros da zona oeste, propor comitês, fazer palestras em universidades, clubes, comícios ao ar livre, carreatas… Mas, ao contrário dos coronéis que dominam a região, não apenas uma vez a cada eleição, e sim frequentemente, para que as pessoas possam conhecer de perto quem são os candidatos que podem fazer algo de diferente para essa gente sofrida.

Dizem que a cultura local é a do clientelismo, difícil de romper. Mas se você não tivesse nenhuma alternativa de pensar no coletivo e vivesse com necessidades imediatas, também não submeter-se-ia a essa prática? Antes de classificar toda uma região como adepta do clientelismo, é preciso oferecer uma reeducação política e opção de voto.

Quem se candidata?

21 de junho de 2016

Temer corta verba de mídias progressistas. Se Dilma tivesse feito o mesmo com a Globo...

É bastante discutível até que ponto um governo interino, ou seja, que está de forma provisória no poder até que se tome uma decisão definitiva, pode tomar medidas consideradas radicais em relação ao governo anterior, que ainda tem a chance de voltar ao cargo. Deveria este governo Temer seguir em banho-maria, mantendo as políticas e as determinações do governo Dilma até que seja votado, definitivamente, o processo de Impeachment?
 
A verdade é que o governo Temer não está nem aí e age como se tivesse sido eleito de forma oficial, como se tivesse vencido um escrutínio nas urnas  — tal como a antiga sigla da direita UDN, o PMDB jamais governou o país ganhando uma eleição —, nomeando ministros, mudando os rumos das políticas do governo Dilma ao seu bel prazer.
 
Dentre tantas outras medidas já tomadas e outras ainda por tomar, algumas são nitidamente de caráter vingativo. O polêmico fechamento do Ministério da Cultura — suposto reduto de militantes progressistas —, sob justificativas inconvincentes não nos deixam mentir. Agora, mais recentemente, o site petista denuncia que o governo interino acaba de cortar verbas no total de 11 milhões de Reais destinados a blogs e sites "alternativos", ou seja, aqueles que de alguma forma, não fazem coro com a grande mídia capitalista e se opuseram ao golpe parlamentar.
 
O que dizer desta medida?
 
Alguns "democratas" diriam que em prol da liberdade de expressão e da pluralidade da comunicação, a medida é autoritária. No entanto, não é de me surpreender. Assim é a direita, assim são as forças oligárquicas e conservadoras no poder. Para esses setores, liberdade de expressão e mídia democrática são conceitos altamente maleáveis, manipulados de acordo com outros interesses. De certa maneira, podemos até dizer que existe uma coerência nesse ato. Ora, se esses sites de oposição querem criticar, atacar, e denunciar o governo, que façam, mas sem o apoio das verbas federais!!
 
Não era exatamente isso que exigíamos do PT enquanto esteve no governo, ou seja, que parasse de financiar as grandes mídias com verbas de patrocínio, as mesmas mídias que caíam de pau todos os dias em cima do governo?
 
Na mesma postagem que critica o corte de verbas de Temer aos blogs progressistas, vemos também o PT dizer, de forma "orgulhosa", como se isso fosse algum mérito, que durante o governo Dilma, "de 2003 a 2014, foram R$ 6,2 bilhões destinados à Globo (...). A "Folha de S.Paulo” ganhou R$ 14 milhões apenas em 2014. Já a revista “Veja”, por exemplo, recebeu R$ 19,9 milhões em 2014".
 
Ora, percebem o absurdo?? Em nome de uma falácia ("A distribuição dos valores comprova que a presidenta eleita não utilizava essas verbas para favorecer ou desfavorecer aliados, mas sim para divulgar temas de relevância entre públicos variados", dizem eles na postagem) o próprio governo Dilma alimentou o monstro que hoje veio a engoli-lo, ou seja, os grandes conglomerados de mídia, aquela famosa meia-dúzia de famílias que monopolizam o mercado de comunicações com seus ideais golpistas. Se tivesse feito como o Temer, hoje, quem sabe, poderia estar numa posição muito diferente da que se encontra.
 
É por isso que dizem que a esquerda, em certos aspectos, tem muito o que aprender com a direita. Com eles, o PT, infelizmente, parece que só aprendeu a praticar o mensalão.