É o fim da Era Vargas

Velório de Vargas

Demorou quase 80 anos, mas finalmente as elites nacionais conseguiram destruir o legado daquilo que ficou convencionalmente conhecido como “getulismo” no século XX. Depois de um suicídio em 54, duas tentativas de impedimento de assumirem a presidência da República (uma de Juscelino em 55 e outra de Jango em 61), conspirações, um golpe militar em 64, uma ditadura, um governo neoliberal nos anos 90, finalmente o golpe final no legado de Getúlio Vargas foi dado de forma direta: a proteção social da Previdência e a Consolidação das Leis do Trabalho foram destruídas.

Para isso, é claro, duas condições primordiais foram decisivas. Um governo ilegítimo e uma esquerda enfraquecida ao mesmo tempo. Em 54, Getúlio Vargas já sofria as pressões de uma classe dominante reacionária e mesquinha, infiltrada em setores diversos como as Forças Armadas, a Igreja Católica, o empresariado e a imprensa.

Seu suicídio serviu como ato político que mobilizou o país, assustou a direita e refreou sua sanha golpista. Em 1955 eles ainda tentaram impedir a posse de Juscelino Kubitschek por suas ligações políticas com o “getulismo”, mas um marechal nacionalista como Henrique Teixeira Lott ainda existia naquela época e garantiu a posse.

Em 61 foi a vez dos ministros militares capitaneados pelo abjeto marechal Odílio Denys e seu antigetulismo cego tentarem impedir a posse do vice-presidente João Goulart pelo mesmo motivo, mas a bravura de Leonel Brizola e do povo gaúcho seduziu Machado Lopes, comandante do III Exército para o lado dos legalistas.

Em 64 veio o golpe e a ditadura militar, mas nem os golpistas tiveram a coragem de mexer nos direitos trabalhistas. Os movimentos sociais, os sindicatos e muitos combatentes da esquerda estavam vigilantes nesse período, e temia-se a repercussão de um ato tão severo.

Durante o governo neoliberal dos tucanos de 1994 a 2001, Fernando Henrique Cardoso decretou publicamente que ia acabar com a Era Vargas. Vendeu o país, destruiu empregos, privatizou empresas estratégicas, mas a CLT, apesar das ameaças, continuava resistindo.

Foi preciso que um governo ilegítimo, sem voto, sem projeto nacional, apenas com compromisso de servir de capacho ao capitalismo entrasse em cena, se aproveitando da fraqueza de uma esquerda abatida com as traições do PT, para que finalmente o sonho das elites desse país se concretizasse: em menos de um ano, inviabilizaram a aposentadoria de milhões de pessoas, enquanto retiravam os direitos de milhões de trabalhadores.

Tudo isso sem tocar em um privilégio sequer das elites. As novas regras da Previdência e o decreto de morte da CLT representam os maiores golpes que os brasileiros já receberam desde a fundação deste país. Na verdade, se olharmos através de um panorama mais geral, estes foram apenas dois grandes golpes num conjunto de incríveis abusos cometidos pelas classes dominantes desde a posse de Temer, especialmente em três setores: na Justiça, na Política e na Imprensa.

Começou com a farsa do golpe que tirou uma presidente, mais uma vez, do poder, porque não agradava cem por cento os setores capitalistas; depois a votação, às pressas, das novas regras da Previdência; a seguir uma reforma do Ensino feita com empresários que inviabiliza uma geração de futuros seres críticos e pensantes; a mudança na partilha do pré-sal que entrega de bandeja para os estrangeiros aquilo que serviria para produzir recursos para a Educação e Saúde públicas; esfriamento das relações com os membros do BRICS que propõem um contraponto à política internacional dos Estados Unidos e seus interesses imperialistas; um pacote de austeridade que prevê cortes em investimentos no país em pelo menos 20 anos, sem, no entanto, questionar o pagamento dos juros da dívida pública, verdadeiro buraco sem fundo que serve para enriquecer os parasitas das classes dominantes.

Esse é o panorama em que as classes médias alienadas com o apoio da rede Globo nos meteram. Só existe duas saídas: o povo sair do seu transe e ir para as ruas numa greve geral, ou mais pacificamente como é do nosso feitio, eleger um candidato em 2018 que prometa reverter todas esses ultrajes que estão sendo feitos com o povo brasileiro. Nunca lutar foi tão imprescindível. Nossos netos não perdoarão nossa covardia, se os legarmos este monstro que está sendo parido.

O caso IG Farben: genocídio judeu em nome do lucro na II Guerra

Fábrica da IG Farben, na Polônia

Até que ponto devemos compreender empresas privadas que cooperaram com o massacre de milhões de seres humanos na Alemanha nazista? Terão sido também vítimas do sistema, sem escolha, a não ser fazer parte da máquina de matança do Terceiro Reich? Ou foram oportunistas imorais? E seus funcionários? Culpados ou inocentes? Aqueles que cumpriram a pena imposta pelo Tribunal de Nuremberg depois da Guerra, limparam seus nomes perante a sociedade ou carregarão para sempre a marca da infâmia? Todas estas perguntas são difíceis de responder. Algumas empresas alemãs precisam conviver com estes dilemas em sua história.

As indústrias químicas alemães no final da Segunda Guerra já haviam chegado a níveis abissais de desumanidade. Dentre elas, a IG Farben, um conglomerado de empresas alemães que na época era a quarta maior empresa do mundo. Durante a Segunda Guerra, ela passou a produzir borracha sintética para atender a demanda do exército nazista – e para isso, não se furtou a usar trabalho escravo dos prisioneiros dos campos de concentração.

IG Farben factory in Monowitz 1941 Fábrica da IG Farben, 1941

A instalação da fábrica na região onde também foi assentado um dos maiores campos de  concentração nazistas, em Auschwitz, na Polônia, foi fruto de um golpe de sorte. Heinrich Himmler, comandante da SS, queria fundar uma colônia alemã na Polônia para aproveitar a grande oferta de mão-de-obra de prisioneiros, enquanto o Dr. Otto Ambros, um executivo encarregado da borracha na IG Farben, sem saber, apontou no mapa o mesmo local como o ideal para a nova fábrica, por ficar perto de rios e ter uma ótima conexão ferroviária. A partir de então Ambros e Himmler juntaram interesses numa relação simbiótica: Auschwitz forneceria mão-de-obra escrava para a fábrica, e a IG Farben entraria com dinheiro e material de construção para a colônia alemã.

O relato de maus tratos, condições bárbaras de vida e assassinatos são de arrepiar. Ao tomarmos conhecimento do testemunho de um operário chamado Rodolf Vrba, transportado para Auschwitz em junho de 1942, podemos ter uma ideia:

Os homens corriam e caíam, eram chutados e fuzilados, Kapos de olhos insanos abriam um ensanguentado caminho por entre prisioneiros retardatários, enquanto homens da SS atiravam sem mirar (...) Homens calados, em roupas impecáveis, passavam no meio de cadáveres que não queriam ver, medindo madeiras com vistosas escalas amarelas, tomando precisas notinhas em cadernetas de couro negro, indiferentes ao banho de sangue.

Com o fim da Guerra, 24 membros do Conselho da IG Farben foram denunciados pelos Estados Unidos e levados a julgamento em agosto de 1947, no Tribunal de Nuremberg. Foram acusados de saque e espoliação, escravidão e assassinatos em massa. Dos 300 mil trabalhadores escravos da fábrica, mais de 30 mil morreram. As sentenças, no entanto, foram leves para os condenados. Oito anos de prisão foi a pena mais severa (caso de Otto Ambros) e um ano e meio a mais comum.

 

nurembergTribunal de  Nuremberg

O general americano Eisenhower estava determinado a desmantelar a IG Farben após a guerra, pois era um símbolo da corrupção e da desumanidade do regime nazista. O Conselho de Controle Aliado ficou responsável por esse processo, mas  não fez nada até ser substituído pela Alta Comissão Aliada Ocidental, em 1949. A partir daí, o processo de desmembramento da IG Farben foi completamente frustrado por interesses econômicos. A IG Farben sobreviveu e se consolidou em três das suas antigas companhias: a Bayer, a BASF e a Hoechst. Pra piorar, em 1955, Friedrich Jaehne, sentenciado a um ano e meio em Nuremberg, foi eleito presidente da Hoechst. No ano seguinte, Fritz ter Meer condenado por saque e escravidão, foi eleito presidente do Conselho Supervisor da Bayer.

A fábrica Buna, em Auschwitz, sobreviveu à Guerra e está em plena operação até hoje.

Fonte:

CORNWELL, John. Os Cientistas de Hitler. Ciência, Guerra e o Pacto com o Demônio. Ed. Imago. Rio de Janeiro: 2003

Como a publicidade ataca a democracia

censura do dinheiro

Se existe um lugar onde o pensamento dominante de uma sociedade pode ser mais bem propagado, esse lugar é na imprensa. Numa sociedade capitalista como a nossa, onde a democracia não passa de uma fachada para ocultar a manutenção de privilégios de uma classe cujo poder econômico é colossal, as mídias atuam na construção e manutenção de um modelo único de pensamento, com diversas maneiras de vetar, desacreditar ou ocultar modelos de mundo rivais aos seus, que venham a contestar esse tipo de realidade.

Um desses métodos se dá através da publicidade e do financiamento de projetos na área da Comunicação, que coincidam com as visões políticas e econômicas das classes dominantes.

Métodos de controle da sociedade

A sociedade industrial burguesa foi moldada para o controle da opinião pública, desencorajando ideias ou reivindicações de reforma ou mudanças de sistema. Tendo como modelo os Estados Unidos, berço do marketing e da publicidade que forja uma democracia de espectadores/consumidores e não de cidadãos atuantes, as elites do Ocidente aprenderam dois métodos para exercer esse domínio sobre as massas: controle da opinião e, em caso de necessidade, força policial.

Durante o século XX, o psicólogo social australiano Alex Carey descreveu a ligação de três instituições políticas que se interligavam em favor das grandes corporações: “as democracias, o poder das empresas e a propaganda das empresas como meio de preservar seu poder democrático”.1

Leia mais: Como as mídias controlam a opinião pública no Brasil

 

O controle das mídias através do dinheiro

Esse modelo de influência das grandes corporações sobre a democracia se dá através de uma série de filtros para orientar a produção das mídias, detonando qualquer resquício de uma imprensa livre e imparcial. Um deles é dependência em relação à publicidade. Neste modelo altamente comercial, as mídias vendem menos informação para um público do que de um público para seus próprios anunciantes. Nós, leitores e telespectadores, somos o próprio produto de barganha das grandes mídias para vender publicidade.

Segundo o escritor canadense Normand Baillargeon2, estima-se que 70 a 90 por cento das receitas de um meio de comunicação provenham da publicidade. E quem paga pela propaganda, deseja que os programas de rádio e televisão ou páginas de um blog ou jornal sejam ambientes favoráveis aos seus negócios.

Eles não chegam a determinar diretamente o conteúdo dos programas ou textos de sites, mas fazem isso de forma muito mais sutil: quem segue a sua política, ganha patrocínio e cresce; quem segue uma linha crítica, contestadora ou diferente, por exemplo, não recebe patrocínio e sofre para se manter.

Blogosfera também é controlada pela publicidade

Quem é escritor de blogs como eu, por exemplo, tem duas opções: ou escreve por prazer e para espalhar as suas ideias por aí, ou, além disso, para ganhar dinheiro na internet. Quem opta pelo segundo caso, sabe que antes de começar a ganhar algum dinheiro, tem que passar pelos diversos filtros dos programas de monetização, como o Google Adsense, o Lomadee, entre outros. Alguns desses filtros tem cunho moral, como por exemplo, não ter conteúdo adulto (erótico), insultos raciais, apologia às drogas, etc. Nesses casos seu blog não consegue permissão de fazer publicidade e ganhar dinheiro. Mas outros filtros são obscuros, secretos e nunca divulgados.

Pensamentos críticos não têm vez

Estes, críticos, não conseguem bons patrocínios; os demais que se enquadram em sua política comercial, conseguem. É uma regra que vale para qualquer tipo de mídia e outras áreas – e o pior, até para trabalhos acadêmicos. Certos temas sensíveis ao sistema são desencorajados por professores descompromissados com a crítica social.

Percebem como isso é danoso para a democracia, e ajuda a perpetuar um modelo tendencioso e parcial, que favorece as grandes empresas e cala as vozes alternativas e críticas?

É claro que o governo brasileiro precisa urgentemente atuar na regulamentação e na democratização das mídias brasileiras, para que o poder econômico não se sobreponha mais aos interesses da população em uma área tão crucial para a democracia quando a comunicação. As mídias não podem se pautar pelo poder econômico, se quisermos que a informação não seja uma mera mercadoria a serviço dos monopólios de algumas poucas famílias, que impõem uma visão de mundo tendenciosa enquanto condena todas as visões opostas à marginalidade.

Leia mais em: Pensamento crítico como arma de autodefesa intelectual


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1 BAILLARGEON, Normand. Pensamento Crítico. Um curso completo de autodefesa intelectual. Rio de Janeiro: Ed. Elsevier, 2007, p. 198 (grifo meu)
2 Idem

A supremacia do Ocidente sobre o resto do mundo (2/2)

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No final da última Era Glacial, há aproximadamente 12 mil anos, o reaquecimento da Terra teve consequências em todos os lugares, mas impactou positivamente muito mais algumas regiões geograficamente melhor localizadas, nas latitudes entre 20º e 35º Norte no mundo antigo, onde a temperatura adequada fez crescer uma variedade de cereais e mamíferos domesticáveis.

Favoreceu, dessa forma, o advento da agricultura nestas áreas. Não aconteceu porque as pessoas destas regiões fossem mais inteligentes ou esforçadas; a natureza havia simplesmente lhes dado mais abundância do que em outros lugares. Foi no Crescente Fértil que a Agricultura surgiu, por volta de 7.500 AEC, depois na China e no Paquistão (5.500 AEC) e no México e Peru, e daí, com o desenvolvimento e difusão de técnicas agrícolas, para o resto do mundo.

Muita gente há de pensar que, desde o surgimento da agricultura no oeste da Ásia — e a reboque dela, de grandes cidades-estados e civilizações avançadas — que o Ocidente está na vanguarda do progresso humano, no topo da escala do desenvolvimento, sendo sempre a região mais rica, mais poderosa e mais sofisticada do mundo, o que não é verdade.

Por mais de mil anos, entre 600 e 1700 EC, esse posto foi ocupado pela China. Enquanto a Europa vivia uma fase de estagnação cultural, os chineses formaram um grande reino unificado. Ian Morris afirma que:

Enquanto os portugueses tentavam descer a costa oeste da África no sec. XV, os imperadores chineses lançavam frotas enormes que viajavam por boa parte do Oceano Índico sob a liderança do almirante Zheng He, que arrecadavam tributos em cidades da Índia, visitaram Meca e chegaram até o Quênia. Se Colombo liderou três navios e 90 marinheiros, Zheng esteve à frente de 300 embarcações e 27.870 homens.

A geografia favorável foi a grande responsável pelo sucesso de algumas regiões na Antiguidade e na Idade Média, mas também foi por causa dela que estas mesmas regiões declinaram em outras épocas, conforme novas contingências, tais como o comércio, se deslocavam para o oeste cada vez mais.

Das cidades italianas de Gênova e Veneza — com a conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos — o centro de comércio europeu se deslocou do Mediterrâneo para o Atlântico, favorecendo primeiro cidades como Lisboa e Madri, e logo depois, Londres. A Grã-Bretanha, há 4 mil anos, era uma região de povos tribais, longe dos grandes centros de civilização como os vales do Nilo, do Indo e do Rio Amarelo, onde cidades grandiosas haviam se estabelecido. A geografia não a favorecia nesse período. Mas há 400 anos, com o deslocamento do eixo do comércio para o oeste da Europa, a mesma geografia que a prejudicava antes, agora a favorecia.

A Inglaterra estava de frente para o recém-descoberto continente do Novo Mundo, numa época em que se procurava por novas colônias e matérias-primas. O caminho entre a ilha britânica e a América pelo Oceano Atlântico era a metade da distância da China para o Novo Mundo pelo Pacífico. Estava inaugurada a Era de domínio ocidental do planeta.

Mas, curiosamente, a história continua se deslocando para oeste. Depois das Duas Guerras Mundiais, a supremacia econômica, cultural, política e militar sai das mãos dos britânicos e vai para a ex-colônia americana, que durante algum tempo, ainda teve que disputá-la com a antiga rival de Guerra Fria, a URSS.

Vencida, a União Soviética abriu caminho para que os EUA se tornassem a única potência hegemônica mundial. Na falta de um grande adversário para satanizar, aos moldes da União Soviética, a partir dos anos 90 os Estados Unidos elegem as regiões petrolíferas do Oriente Médio como a bola da vez, provocando guerras e intervindo diretamente na região, derrubando governos, apoiando regimes ditatoriais e guerras, cultivando inimigos e batizando-os com a etiqueta genérica de “terroristas”.

Reagindo ao que consideram uma violência xenófoba-religiosa-econômica dos Estados Unidos contra os povos árabes, que são invadidos e desrespeitados em seus assuntos internos, grupos fundamentalistas como a Al Qaeda de Osama Bin Laden planejam atentados contra o Império pelo mundo afora, que culminam no ataque às Torres Gêmeas do WTC há  15 anos.

O terrorismo da reação do governo americano não foi menor do que o produzido por Bin Laden. Muito pelo contrário. Neste últimos anos, 900 mil pessoas foram assassinadas pela “Guerra ao Terror” no Oriente Médio — um número de mortes 300 vezes maior do que as vítimas do WTC.

 
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Tudo isso mostra que o Ocidente, que domina o mundo nos últimos 400 anos, não tem nada de especial, não estão no topo da civilização mundial e tem nenhum direito de se impor ao resto do mundo. Está apenas exercendo uma hegemonia temporária, enquanto se recusa a estabelecer um diálogo de respeito com aqueles que não compactuam com a sua visão de mundo.
 
Esta falta de entendimento entre Ocidente e Oriente é antiga e piorou muito com a hegemonia americana. Ao que tudo indica, ao olharmos o trajeto que a história tem feito no mapa nos últimos séculos, é provável que a China supere o Ocidente entre 2050 e 2100 e reconquiste a sua posição de hegemonia econômica, política e militar no planeta.
 
Será o fim do efêmero domínio dos Estados Unidos e do Ocidente. Resta saber se a transição será pacífica, ou causará mais guerras e mortes de inocentes no futuro.

A supremacia do Ocidente sobre o resto do mundo. O que explica esse fenômeno? (1/2)

Domínio do Ocidente sobre o Oriente

Quase 16 anos depois do que é conhecido como o “maior atentado terrorista de todos os tempos”, fruto, em grande parte, do relacionamento historicamente hostil entre o Ocidente e o resto do mundo, nos propusemos a debater o 11 de Setembro e seus antecedentes por um outro ângulo: por que o Ocidente domina o mundo, às vezes de forma violenta, gerando ódios que resultam em atentados e guerras? Superioridade racial, como pensam alguns? Democracia desenvolvida? Tecnologia avançada? Missão divina? Nada disso. A resposta pode estar simplesmente na geografia.

“Eu estou usando suas roupas, falo sua língua,
assisto a seus filmes, e hoje é a data que é porque você determinou que fosse assim.”

Shad Faruki, advogado malaio a Martin Jacques, jornalista britânico, numa entrevista em 1994

Terça-feira, 11 de setembro de 2001. Naquela manhã, nos Estados Unidos, aviões são jogados nos prédios do World Trade Center e no Pentágono (um quarto avião com destino ao Capitólio foi abatido antes do alvo por passageiros). Começava o maior atentado terrorista da história, que sensibilizou o mundo Ocidental e fomentou uma rápida e agressiva reação. Grande parte da motivação para uma ação de tamanhas proporções é o ressentimento, o ódio contra países ocidentais que impõem seu modo de vida ao resto do mundo. Parece que o Ocidente — quando dissermos “Ocidente” aqui estaremos nos referindo especialmente à Europa e aos Estados Unidos — sempre esteve na vanguarda da civilização, devendo impor sua visão de mundo a regiões menos avançadas, numa espécie de missão civilizadora dada por deus. De fato, o Ocidente hoje domina, mas será que sempre foi assim mesmo?

Ao longo do tempo muitas teorias concorreram para explicar esse fenômeno: superioridade racial; dinamismo da civilização; democracia forte; cristianismo que incentiva a disseminação de preceitos universais, etc. Mas nada disso se justifica. Sabemos hoje, que, não obstante a política de racialização dos arautos do multiculturalismo, a humanidade é praticamente igual no mundo inteiro; não existe tal coisa como superioridade racial ou intelectual. Portanto, teorias racistas para explicar o domínio do ocidente hoje estão descartadas por estudiosos sérios.

Muitos pesquisadores afirmam que o Ocidente tem algo de único e especial, como seu avançado conhecimento e produção intelectual. Sócrates, Newton, Leonardo Da Vinci são exemplos dessa característica ocidental de genialidade. Só mesmo uma visão altamente eurocêntrica poderia sustentar tal ideia. Existem tantos pensadores brilhantes fora desse nicho europeu que chega a colocar o continente como um mero ponto isolado no mapa, dentre tantas outras regiões de cultura que floresceram na história do mundo em várias épocas. Enquanto a Europa vivia a queda da civilização greco-romana e um período de declínio cultural, o Oriente médio produziu grandes matemáticos, astrônomos, médicos, enquanto a China de Confúcio mais tarde teve seus próprios “homens do Renascimento” — 400 anos antes da Europa! O que dizer de Shen Kua (1031-1095), autor de obras pioneiras sobre agricultura, arqueologia, cartografia, meteorologia, literatura, filosofia, etnografia, geologia, matemática, medicina, metalurgia, música, pintura e zoologia? O próprio Leonardo Da Vinci ficaria impressionado.

Segundo o historiador e professor da Universidade de Stanford, Ian Morris, “os humanos podem ser todos quase iguais onde quer que estejam, mas os lugares em que ele vive não são”. Ou seja, fatores geográficos e climáticos podem influenciar o desenvolvimento de certas regiões em detrimento de outras. A geografia, segundo este historiador,  é a chave para entendermos por que determinadas civilizações prosperam e decaem ao longo do tempo. Clique no link abaixo e acompanhe a segunda e última parte desta postagem:

A supremacia do Ocidente, parte 2

Ilhas Malvinas: 35 anos depois da guerra, ainda sem solução

Disputa entre Argentina e Inglaterra pelas ilhas Malvinas

Desde o século XVII que as ilhas descobertas a 500 Km da costa atlântica da América do Sul — e a 14 mil Km do Reino Unido — causam controvérsias entre espanhóis e ingleses, e depois entre estes e os argentinos. Há quase 180 anos — desde janeiro de 1833 —, depois de algumas pequenas disputas sobre o território, a Inglaterra envia uma fragata e anuncia a ocupação destas ilhas pelo Império Britânico, chamadas de Malvinas por argentinos e Falkland por ingleses.

Malvinas ou Falkland

 


Visualizar Ilhas Malvinas em um mapa maior

 

Quando os militares brasileiros tomaram o poder político à força em 1964, foi possível conhecer a posição ideológica de quem se pronunciava sobre o assunto, pela forma que classificava o ato. Revolução ou Golpe? A disputa sobre quem tem razão no caso das ilhas sul-americanas gera uma situação semelhante: é possível saber a visão sobre a questão das ilhas somente observando como as pessoas as nomeiam. Aqui eu chamo as ilhas de Malvinas, e não Falkland, e isso já mostra como eu me posiciono a respeito do tema.

Contexto

A Argentina da primeira metade do século XIX era então um jovem país que lutava para ter sua Independência reconhecida no mundo, sem condições de enfrentar a poderosa marinha britânica. Mas no século XX o cenário geopolítico tinha mudado o bastante para a Argentina reforçar sua campanha para a retomada da soberania das ilhas. Entre abril e junho de 1982, a Argentina achou que era hora de combater o invasor, e desencadeou a Guerra das Malvinas, prestes a completar agora 35 anos, sem uma solução definitiva ainda. A Argentina perdeu a guerra, a Junta Militar que governava o país caiu, e o governo conservador de Margareth Thatcher conseguiu mais um mandato nas eleições inglesas de 1983, saindo fortalecido do conflito.

O problema das Ilhas Malvinas hoje

Como resposta a uma maior militarização inglesa na ilha — em 2009 eles também passaram a explorar petróleo na região — os países do Mercosul com costas marítimas decidiram não aceitar que embarcações com bandeiras de Falkland entrem em seus portos. Além disso, diversas resoluções da ONU e da Unasul condenam a Inglaterra por sua insistência em não negociar diplomaticamente com a Argentina uma solução para o caso, preferindo a violação sistemática de águas argentinas.

Por outro lado a União Europeia endossa a posição inglesa, apoiando o resquício colonialista em plena era de globalização.

Uma tática inglesa muito comum acontece nas ilhas. Desde que chegou, a Inglaterra procurou povoar a região com “súditos leais da rainha Elizabeth II”. A partir disso, qualquer tentativa argentina de reivindicar a soberania da região, é tida como uma ameaça ao povo inglês, e justifica assim uma resposta militar.

Por falar em resposta militar, eu lembro da postura de um importante país americano nesse conflito: os Estados Unidos. A história é curiosa e merece ser lembrada.

Os Estados Unidos deixam a Argentina a ver navios

Em 1947 quase todos os países das Américas, incluindo a Argentina e os Estados Unidos, assinaram o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) cuja finalidade era defender um membro caso fosse atacado por um país de fora. Uma agressão a um país do tratado seria considerada um ataque contra todos. Em 1982 a Argentina invocou o acordo, pedindo apoio norte-americano contra o que considerava uma agressão do invasor inglês. Em resposta, os Estados Unidos resolveram apoiar... a Inglaterra!

Isso não deveria causar surpresa, a não ser nos mais incautos. Os EUA, além de laços históricos e culturais com os ingleses, também eram signatários da OTAN, e o único interesse político que tinham na América Latina era conter o comunismo.

Como resolver a questão

Ainda há uma saída para a questão das ilhas. Em 1968 o então primeiro-ministro trabalhista inglês Harold Wilson assinou um documento, que não entrou em vigor imediatamente porque em 1970 foi eleito o conservador Edward Heath, que o engavetou. De acordo com este documento, no seu artigo 4, está definido:

O governo de sua Majestade Britânica reconhecerá a soberania argentina sobre as ilhas a partir da data a ser combinada. Essa data será fixada tão logo o governo de sua Majestade Britânica esteja satisfeito com as garantias e salvaguardas oferecidas pelos governos argentinos para defender os interesses dos seus habitantes.

Como se vê, basta à Inglaterra pôr de novo este acordo em pauta, para demonstrar boa vontade e cumprir as determinações internacionais. Seria uma saída digna para Sua Majestade e o fim de um abuso que só seria justificado em épocas de colonialismo.

Quando a música se presta a fins abomináveis

Tortura da música comercial
A “arte das musas”, ou simplesmente a música, é, sem dúvida, uma das criações mais sublimes do homem. Talvez não existam grupamentos humanos, clãs, tribos ou civilizações ao longo de toda a jornada humana neste planeta que não tenham suas próprias músicas, seja como forma de arte, como forma de transmitir valores, ou como forma de entrar em contato com o sagrado.
 
Mas infelizmente, muitas invenções humanas que na sua essência tinham princípios nobres, ao longo do tempo foram sendo corrompidas para fins espúrios. É claro que a música não iria escapar a esta perversa tendência humana.
 
Não cabe aqui uma complexa e profunda análise da história da música em todos os seus gêneros e subgêneros, apenas um pequeno panorama histórico a partir da ascensão da burguesia no Ocidente para chegarmos até a atualidade e compreendermos a progressiva degeneração da música.
 

O capitalismo na música

Até o final do século XIX, a música era um requinte das classes mais elevadas. A crescente classe burguesa tinha na música erudita o reflexo da sua sociedade: organizada, complexa e elitizada. Somente com o industrialismo, a urbanização e com a cultura de massas, é que a música popular passaria a ser reconhecida e a ter também o seu valor. No entanto, durante o século XX, a indústria capitalista do consumo conseguiu transformar a espontânea manifestação popular em produto descartável de consumo, como todo produto industrial. É a obsolescência programada levada também para a esfera da cultura.
 
Melodia, poesia e beleza, letras com teor de crítica social e política foram substituídas por musicas mais curtas, simples, com refrãos pegajosos e letras que falam de relações amorosas superficiais no intuito de “colar” na mente do ouvinte. O samba de raiz, por exemplo, virou pagode comercial; a música regional do interior do país virou “musica sertaneja”, músicas de protesto como o punk rock ganharam versões pop e a Música Popular Brasileira caiu vertiginosamente de qualidade nos últimos anos com músicas pobres criadas nos escritórios das grandes gravadoras com artistas fabricados, como já descartado Michel Teló e companhia.
 

Jingles de campanha política e música gospel

Muita gente esperta percebeu, há tempos, que a música tem a capacidade de baixar nossa guarda, nos influenciar, mexer com nossas emoções e deixar marcada na mente uma mensagem. Os religiosos evangélicos trataram logo de vetar as músicas “do mundo” e criar suas próprias canções gospel com apelo emocional para ganhar a mente dos fiéis, enquanto que os políticos optaram por criar jingles de campanha em épocas de eleições para ganhar o voto dos eleitores, com refrãos pegajosos e repetitivos, usando a mesma fórmula das músicas comerciais de hoje – inclusive muitas vezes eles utilizam até o mesmo “sucesso” do momento nas rádios, com a letra adaptada para a campanha.
 
Tudo isso é a subversão da beleza e da magia que é a música. Infelizmente a grande maioria das pessoas está tão acostumada à pobreza musical dessa sociedade de massas, da indústria do entretenimento, da cultura descartável, que chega a confundir esse tipo de música fast-food, pobre, vazia, com a própria música em si. Aliás, a música é apenas uma das coisas que essas pessoas engolem sem critérios nem escolha. Apenas engolem.

Paulo de Tarso, o primeiro marqueteiro da história

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Com o fim dos conflitos da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente experimentou o crescimento de uma economia onde o capitalismo se tornava cada vez mais dominante. Novas empresas, novos produtos, novos utensílios disputavam a atenção dos consumidores num mercado cada vez mais feroz e competitivo.

Este terreno fértil propiciou o surgimento do marketing moderno, há 60 anos. No nosso mundo industrializado atual, padronizado e visual, é possível fazer marketing com qualquer coisa, desde o entretenimento até a pesquisa científica.

Embora os gurus do marketing moderno pensem ser os pioneiros desta atividade, o que eles não sabem é que, na verdade, foi a Igreja Católica que primeiro inventou os princípios infalíveis de estratégias de mercado, há dois mil anos. É isso que mostra o professor da Universidade La Sapienza de Roma, Bruno Ballardini, especialista em Comunicação Estratégica, no seu livro Jesus lava mais branco: como a Igreja inventou o marketing1. Neste trabalho, o autor lança mão de diversos termos técnicos e práticas pertencentes ao universo do marketing moderno para mostrar como eles já existiam nos primórdios da Igreja Católica, quando ela tinha que lutar contra a concorrência das crenças rivais e conquistar mais fiéis.

Paulo de Tarso, product manager da Multinacional

O marketing é uma guerra onde os limites éticos não são muito bem definidos. Nesse terreno vale quase tudo, inclusive desestabilizar emocionalmente o targeti. Uma forma de atingir esse objetivo é suscitar nos consumidores dois sentimentos ligados entre si: o sentimento de dívida e o sentimento de culpa. Através da comunicação, os evangelistas (como relações públicas de uma empresa) trataram de espalhar não somente a “Boa Nova”, como também uma boa dose de culpa pelo mundo.

De acordo com os criadores do novo empreendimento cristão, houve um tempo remoto em que tínhamos uma condição de vida melhor, uma Era de Ouro que nos foi tirada. Nesse período inicial da criação da Multinacionalii, o seu primeiro product manager foi, nada mais, nada menos, que Paulo de Tarso, a mente que bolou a estratégia de persuasão nas duas etapas, conforme nos relata Bruno Ballardini:

Na primeira, apossou-se da carga inculpadora daquele mito. Nós teríamos perdido o Éden por sermos descendentes do primeiro pecador, aquele que, por sua falta, foi justamente escorraçado do Paraíso (…). Na segunda parte de sua genial estratégia de comunicação, por sua vez, Paulo ligou indissoluvelmente este fato à remissão do pecado original, graças ao sacrifício de Jesus (Ro. 5,19; 1 Cor. 15,22)

Sentimento de culpa, misturado com sentimento de dívida... Eis a fórmula do sucesso da Igreja ao longo do tempo.

Cruznegra_alemanaPaulo de Tarso também foi o responsável por outra estratégia de marketing crucial: para atrair novos adeptos e dar uma identidade à incipiente Multinacional, adotou como “logomarca” um poderoso instrumento de persuasão: a própria cruz onde Jesus – o primeiro “testemunhaliii” da empresa – foi supostamente sacrificado.

Depois desse competente trabalho de desestabilização emocional do target, o próximo passo seria a conquista da uniqueness, ou seja, afirmar a exclusividade do produto frente à concorrência. Não eram poucas as seitas judias na Palestina que concorriam para angariar maior número de adeptos. Para conseguir se destacar, Paulo de Tarso relacionou um produto aparentemente semelhante aos demais (o cristianismo) com a garantia fornecida pelo seu primeiro testemunhal: Jesus. Um testemunhal ainda mais chamativo por se apresentar como parte integrante do produto, cuja eficácia ele mesmo havia provado com uma demoiv absolutamente realista e impressionante.

Paulo de Tarso, sem sombra de dúvidas, inaugurou o processo, podendo ser considerado o primeiro marqueteiro da história. Ele preparou o terreno das grandes campanhas publicitárias e do marketing diretov, com suas diversas cartas enviadas a grupos (tessalonicenses, coríntios, gálatas, romanos, efésios, etc.) e formadores de opinião (Filemon, Timóteo, Tito). Um verdadeiro guru da publicidade postal, mandando cartas pra todo canto. A história de sucesso da Igreja Católica até aqui tem sido a história escrita a muitas mãos ao longo dos séculos, através do emprego de diversos testemunhais (teólogos que citam teólogos, Aquino que usa Agostinho, Agostinho que reafirma Irineu de Lion, etc.), de “jingles*” de sucesso, do monopólio que conquistou durante muito tempo, enfim, das mais variadas técnicas de marketing muito bem aplicadas. O sucesso dessa campanha está bem aí, diante dos nossos olhos, quando JESUS virou uma marca em si mesma em adesivos de carros, e passagens bíblicas que se tornaram meros slogans de propaganda.

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1 BALLARDINI, Bruno. Jesus lava mais branco: como a Igreja inventou o marketing. Gryphus: Rio de Janeiro, 2010

i O alvo, o destinatário das campanhas publicitárias.

ii Multinacional é como o autor se refere à Igreja Católica no livro.

iii Testemunhal: técnica publicitária que consiste em fazer alardear os méritos do “produto” por alguma pessoa famosa ou considerada influente.

iv Abreviação de demonstration, ou seja, demonstração do produto.

v Publicidade via correio, internet ou telefone. Tem esse nome porque permite alcançar o target individualmente.

Erasmo de Roterdã: o choque entre o humanismo e a religião

Erasmo de Roterdã

Paul Johnson, apesar de hoje em dia assumidamente ser um historiador católico da linha conservadora, prima pela honestidade intelectual em relação às suas obras – pelo menos é assim na História do Cristianismo. Nesse trabalho, jamais se mostra constrangido em revelar os artifícios, muitas vezes imorais, dos clérigos, monges, prelados, etc. para a manutenção do poder ao longo do tempo, bem como da degenerescência da Igreja na época das Reformas.

É justamente neste período que ele nos dá um panorama das relações entre os eruditos e a Igreja Católica, através do relato da vida de Erasmo de Roterdã, a começar com a sua visita a um santuário em Cantuária, ao lado de John Colet, reitor da Escola de S.Paulo.

Uma sociedade em plena mudança

Após a visita, Erasmo mais tarde relataria que as riquezas que viu nos adornos do santuário o deixaria profundamente chocado. Para se ter uma ideia, trinta anos depois, o rei inglês Henrique VIII, na esteira da sua reforma, mandaria arrancar dali 140 quilos de ouro, 300 quilos de prata e 26 carroças de outros tesouros.

Na época dessa visita, já estava bem claro que a sociedade europeia estava vivendo uma fase de profundas mudanças. A “sociedade total”, sob o domínio da Igreja, começava a se abrir em diversos domínios, como o político, o cultural e o religioso.

Essas mudanças proporcionaram o surgimento de eruditos que passaram a questionar a validade de documentos antigos, através de novos métodos de avaliação crítica. Foi assim, por exemplo, que por volta de 1450, o secretário do Papa Nicolau V provou que a Doação de Constantino e muitos outros textos fundamentais não passavam de flagrantes falsificações feitas pela Igreja Católica.

Esse movimento estava bem de acordo com o espírito das Reformas, com a ignorância identificada com o pecado, coincidindo  praticamente com a difusão da imprensa na Europa, quando as obras de filósofos gregos e outras de grande interesse para a reforma passaram a circular de forma ampla e barata, gerando um grande problema para a Igreja Católica.

Erasmo de Roterdã

Erasmo nasceu nesse ambiente de disputas entre a Igreja e a Reforma, em 1466, e sua origem era o exemplo perfeito dos tempos antigos: filho bastardo de um padre e uma lavadeira, um testemunho vivo da incapacidade da Igreja em lidar com o concubinato de seus membros. Assim como hoje os clérigos do Vaticano condenam publicamente o homossexualismo e a praticam por debaixo dos panos, muitos padres naquela época tinham a aura de castos, embora repletos de filhos bastardos espalhados pelas comarcas.

A essas crianças só cabia entrarem para a Igreja, mesmo de má vontade ou sem qualquer entusiasmo religioso, por serem uma espécie de subclasse canhestra e cheias de rancor pelas classes privilegiadas, das quais seus pais eram membros. Erasmo era um caso desses.

Com uma educação precária na infância, teve a sorte de se tornar secretário de um bispo, que o enviou para a Universidade de Paris. E aqui cabe um registro: apesar de já estarmos numa época de novas perspectivas de erudição, de pesquisas e de ensino, a Universidade ainda era uma instituição plenamente “medieval”. A faculdade de Montaigu, por exemplo, era conhecida pelos parisienses como “O sulco entre as nádegas da Mãe Teologia”, porque seus recintos eram úmidos, antigos e asquerosos; a comida era nojenta, os dormitórios fediam a urina e os açoitamentos frequentes. Erasmo já tinha 26 anos de idade, e odiava o lugar. Outro aluno ilustre da mesma faculdade, João Calvino, por outro lado, a adorava, por conta de sua “austeridade”. Esse conflito de opiniões é a síntese de duas das mais importantes clivagens do século XVI: o humanismo e o puritanismo reformista.

Leia: Erasmo de Roterdã vs. Martinho Lutero

Os inacreditáveis debates universitários da época

As Universidades estavam tão alheias aos acontecimentos de sua época, que na de Louvain, onde Erasmo passou um tempo, os professores e estudantes debatiam, em 1493, os seguintes tópicos:

  1. orações de quatro ou cinco minutos em dias consecutivos teriam melhores chances de ser atendidas que uma oração de vinte minutos?
  2. Uma oração de dez minutos, dita em benefício de dez pessoas, teria a mesma eficácia de dez orações de um minuto?

Esse debate se prolongou por oito semanas (!), mais tempo do que Colombo levara para chegar na América, no ano anterior!

A igreja considera Erasmo, é claro, “líder dos hereges”

Durante quatro décadas até a sua morte, em 1536, a produção de Erasmo cobriu uma imensa área, abrangendo a vida cristã, a teoria e a prática da Educação, tornando-se um elevado erudito de padrões acadêmicos. Era um best-seller mundial vivo, e recebia tantas cartas que o funcionário do correio passava primeiro na sua casa antes da prefeitura, quando vivia em Antuérpia.

Se tivesse proposto seus pontos de vista um pouco mais tarde, teria sido perseguido pelos Habsburgos e excomungado pelo papa. Em 1546, apenas dez anos após sua morte, o Concílio de Trento declarou a sua famosa versão do Novo Testamento um “anátema”, e em uma sessão posterior, o Papa Paulo IV denominou Erasmo o “líder de todos os hereges”, ordenando a queima de suas obras completas.

Por essas e outras que a Igreja Católica foi e continua sendo o bastião de todo o obscurantismo e ignorância. Se não fosse por reformadores como Erasmo de Roterdã e outros que, antes e depois dele, com coragem, enfrentaram a autoridade da Igreja Católica, que tipo de sociedade medieval teríamos até hoje em dia?

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JOHNSON, Paul. A História do Cristianismo. Ed Imago, Rio de Janeiro: 2001. pp. 321-327.

http://www.historiadomundo.com.br/idade-antiga/a-doacao-de-constantino.htm

http://www.infoescola.com/biografias/erasmo-de-roterda/

Martinho Lutero ou Erasmo de Roterdã? O mundo escolheu errado

Nos 471 anos da morte de um dos mais influentes pensadores do Ocidente, no próximo 18 de fevereiro, relembramos as  decisivas disputas de sua época, em que a Igreja passava por grandes transformações. Martinho Lutero acabaria vencendo a batalha ideológica pela supremacia do protestantismo e tudo o que ele representa. E o mundo pagaria um preço caro.

Martinho Lutero

Quando a poderosa Igreja Católica começou a ter sua autoridade moral questionada na Europa, por volta do final do século XV, em razão da corrupção e da lassidão de seus líderes, vários foram os pensadores, dentro e fora da própria Igreja, que defenderam reformas na instituição – quando não, a superação da mesma. Dois desses reformadores foram Erasmo de Roterdã e Martinho Lutero.

O espírito reformador

Erasmo, apesar de profundamente cristão, se opôs ao domínio da Igreja Católica na ciência, na cultura e na Educação. Seguia a linha de tradição de Tertuliano e Pelágio, que consideravam normal que leigos cultos pudessem perfeitamente conduzir a Igreja, recusando a exclusividade dessa função ao clero. Ele era, em grande medida, um produto da nova civilização urbana renascentista, e ficou contente em notar, por exemplo, que um número cada vez maior de escolas estavam sendo fundadas por pessoas laicas, quando a Igreja ainda reivindicava o direito de monopolizar o ensino.

Essa defesa da diminuição do papel clerical na vida das pessoas era fruto de sua crença de que não podiam haver intermediários entre os cristãos e as Escrituras, e isso era um ponto que ele tinha em comum com todos os reformadores, numa época em que as tentativas de se estudar a Bíblia por si só constituíam prova circunstancial de heresia – e a pessoa poderia ir para a fogueira por isso. A imprensa popularizou o acesso às Escrituras de tal modo que os censores da Igreja já não podiam dar conta do volume de cópias publicadas, e Erasmo saudou esse acontecimento de sua Época:

Será que Cristo ficaria ofendido que o leiam aqueles que Ele escolheu para seus ouvintes? Em minha opinião, o agricultor deveria lê-lo, junto com o ferreiro e o pedreiro, e mesmo prostitutas, alcoviteiras e turcos. Se Cristo não lhes recusou sua voz, tampouco serei eu a recusar-lhes seus livros”

 

A Bíblia era, para Erasmo, bem como para os reformadores, o centro da vida cristã. Rejeitavam o cristianismo mecânico da Igreja Católica e suas indulgências, peregrinações, privilégios especiais, todo o negócio de conquistar a salvação com dinheiro.

Pontos de divergências com os protestantes

Onde estaria, então, a salvação para os cristãos? Aqui é o ponto onde começam as divergências entre a reforma erasmiana e a luterana (e mais tarde, a calvinista).

Erasmo defendia que a salvação era conquistada com a devoção privada, de maneira direta, sem intermediários. A Igreja, na sua visão, precisava reduzir a teologia ao mínimo, de modo a simplificar a fé e a salvação. Os crentes poderiam ou não aceitar as definições oficiais dos teólogos, usando o próprio discernimento para solucionar as dúvidas.

Sua proposta era abominável para os olhos da Igreja, ávida, pelo contrário, por mais controle e autoridade sobre os fiéis, mas também era incompatível com a ideia dos reformadores protestantes. Erasmo defendia uma reforma moral, pura e simples; para Martinho Lutero, uma reforma moral da Igreja era importante, mas não podia parar por aí. Ela só faria sentido se ocorresse dentro de um contexto de mudança institucional e correções drásticas na doutrina. Não era questão de apenas simplificar a doutrina mas de corrigi-la – o que significava mais doutrinas, não menos.

Os ataques e acusações mútuos entre católicos e protestantes

Erasmo se mantinha neutro com relação aos ataques violentos de Lutero contra o clero, e as respostas dos correligionários destes na mesma moeda. Lutero convocava a cristandade a “lavar suas mãos no sangue desses cardeais, papas e o restante da ralé da Sodoma romana”, enquanto os teólogos papistas bradavam pela execução “daquele pestilento flato de Satanás, cujo mau cheiro chega aos céus”. Lutero não abria mão de fazer valer suas doutrinas nas áreas de sua influência, e Erasmo deplorava o fato do líder protestante haver recorrido aos príncipes germânicos para apoiarem sua Reforma. O governante de cada Estado definir do alto a religião do seu povo era um acinte. Sendo pacifista e tolerante, não aceitava o princípio da “guerra justa” contra as religiões minoritárias, como Lutero defendia. Conforme escreveu ao duque da Saxônia: “tolerar seitas pode parecer-lhe um grande mal, mas ainda é muito melhor do que a guerra religiosa”.

Erasmo contesta Lutero publicamente

Martinho Lutero publicamente mantinha uma postura de respeito frente a Erasmo, mas na verdade, via-o como um “cético orgulhoso”, um homem de pouca fé. Por sua vez, Erasmo considerava Lutero como um “godo”, um homem do passado, por conta de seu radicalismo fanático.

A ampla disseminação das visões deterministas da salvação defendidas por Martinho Lutero obrigou Erasmo a sair da neutralidade. Em sua Discussão do Livre-Arbítrio (1524) rejeitou a ideia de predestinação, enfatizando a capacidade humana de obter a salvação pelos seus próprios meios, obtendo de Lutero uma resposta, como sempre rude.

À medida que Lutero ia se impondo, Erasmo ia se afastando dos reformadores. Passou seus últimos dias em cidades tolerantes onde desejava escapar da guerra religiosa que estava por vir. Acreditava que o mundo estava enlouquecendo, e em uma de suas últimas obras, Sobre a Doce Concórdia da Igreja, fez seu último apelo por tolerância mútua, humildade, boa vontade e moderação. Foi atacado violentamente pelos dois lados, o católico e o luterano.

A terceira via que não vingou

Alguns dos intelectuais mais proeminentes defendiam as propostas de Erasmo. O reformador moderado Ecolampédio escreveu-lhe, em 1522: “Não desejamos nem a igreja luterana, nem a católica. Queremos uma terceira”. Como todos sabem, infelizmente essa terceira igreja, como o próprio Erasmo se referia, não prevaleceu, e até hoje assistimos a essa disputa teológica entre católicos e protestantes, mas que pelo menos já sem as cenas de matança, guerras, expulsões, e conflitos violentos de tempos atrás. O mundo perdeu a chance de ter uma instituição religiosa mais tolerante e defensora da paz, como era o sonho de Erasmo, e em vez disso, viu aumentar cada vez mais as disputas e guerras em torno da fé com a Reforma e a Contra-Reforma.

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Fonte: JOHNSON, Paul. A História do Cristianismo. Ed Imago, Rio de Janeiro: 2001. pp. 327-340.