Panorâmica Social

Denúncia das injustiças da plutocracia brasileira e mundial

14 de agosto de 2017

Venezuela e Coreia do Norte: pelo direito de não se alinhar aos Estados Unidos sem sofrer retaliações

14 agosto 0

Trump destruindo o mundo

A livre determinação dos povos foi um dos maiores marcos do direito internacional conquistados pelos Estados soberanos.  A resolução da Assembleia Geral da ONU, n.º 2625 (XXV), de 24 de outubro de 1970, responsável por este acordo, trabalha em dois níveis. No nível “nacional” afirma especialmente o direito dos povos indígenas e da população em geral de buscar o seu bem-estar.

A nível internacional, define “o estabelecimento de relações amistosas entre os Estados, baseadas no respeito pelo princípio da igualdade soberana”. (fonte). É o direito de um povo à soberania e a liberdade de decidir, independentemente de influências estrangeiras, sobre sua forma de governo, seu sistema de governo e o seu desenvolvimento econômico, social e cultural. (fonte, artigo 1, parágrafo 1).

No entanto, muito antes e muito depois destas determinações, os Estados Unidos da América continuam violando constantemente a soberania e a liberdade de outros povos. Trump elegeu as bolas da vez: Venezuela e Coreia do Norte.

A alegação oficial é que aquele país norte-americano luta pela liberdade e pela democracia no mundo. Mas seria muita ingenuidade, mesmo para aqueles que não conhecem a história imperialista dos EUA, acreditarem nesse discurso. Em nome da liberdade e da democracia os Estados Unidos implementaram golpes e ditaduras na América Latina, derrubaram líderes que lutavam pela independência dos seus países pelo mundo afora, e até recentemente, sob o pretexto de derrubar “ditaduras” no norte da África e no Oriente Médio, patrocinaram grupos de fanáticos islâmicos que trouxeram o caos no Iraque, Afeganistão, Libia, entre outros.

Foram e são amigos das maiores ditaduras do planeta, desde que sejam alinhadas com seus interesses capitalistas, como o Chile de Pinochet e a Arábia Saudita dos príncipes do petróleo. E agora querem levar a liberdade e a democracia para a Venezuela e Coreia do Norte. Alguém ainda acredita?

Leia mais: lista de países que sofreram golpes ou invasões dos EUA

Venezuela não pode ter governo popular

Se o governo da Venezuela passa dificuldades é por causa de uma parcela da população, a classe média reacionária e a alta burguesia acostumadas a mamar nas tetas do petróleo venezuelano, que não aceitam um governo de cunho popular, que distribui a renda e que é sabotado de todas as formas, desde ao manipulável preço baixo do petróleo internacional, que cria imensas dificuldades à economia do país, até os empresários locais que estocam alimentos para criar o clima de convulsão social propício à baderna geral.

A partir do momento em que os EUA se meterem nos assuntos internos desse país, além de estarem cometendo um crime internacional, estarão contribuindo para colocar os capitalistas burgueses locais no poder, para vender petróleo barato aos EUA em troca de reconhecimento do governo golpista. Exatamente como no Brasil e nosso pré-sal, com a diferença que aqui não temos um povo instruído politicamente que possa ir às ruas enfrentar na mão os reacionários vendilhões da classe média que apoiam o golpe.

Coreia do Norte impedida de ter seu próprio caminho

Já o caso da Coreia do Norte é um pouco diferente e complexo. A Guerra Fria ainda parece ser o pano de fundo da divergência estadunidense com o país norte-coreano, onde todo país não alinhado com os interesses do liberalismo econômico mundial é considerado uma ameaça. Kim Jong-un é tratado como um louco ditador que manipula a população e coloca em risco a segurança do planeta. Mas a verdade é que o povo norte-coreano não é mais e nem menos manipulado do que o próprio cidadão dos Estados Unidos, estupidificado por uma mídia alinhada com os interesses do governo e do capitalismo, que mente sobre armas de destruição em massa e usa da desinformação como forma de garantir o apoio da população às inúmeras intervenções armadas dos EUA pelo mundo.

Veja mais: Conheça a farsa que levou os Estados Unidos para a Guerra do Golfo em 1991

O próprio governo norte-coreano é alvo das maiores mentiras que a mídia internacional pode produzir, que vão desde a obrigação de todo cidadão cortar o cabelo igual ao do seu líder, passando por crises de abastecimento nos mercados até assassinatos de parentes do líder local que aparecem bem vivos no dia seguinte.

Com relação ao poderio nuclear norte-coreano, alguém poderia culpá-los? Com certeza Kim Jong-un aprendeu com o erro fatal de Muamar Kadafi, que entrou em acordo para reduzir seu arsenal bélico e no fim foi arrastado pelas ruas e trucidado pelos “opositores” alinhados com os Estados Unidos, entregando a Líbia ao caos e à destruição.

Se existe algum país que represente um perigo para a ordem internacional, esse país é os Estados Unidos. Se existe algum líder louco e irresponsável a ponto de colocar o mundo na beira de uma guerra, esse líder se chama Donald Trump. Todos os países devem ter o direito de seguir o seu rumo sem serem atacados por ninguém em nome da riqueza e dos interesses políticos de terceiros.

3 de agosto de 2017

Se todos os bandidos tivessem as mesmas facilidades de Michel Temer? Veja alguns exemplos

03 agosto 0

sindicato dos ladrões

Ontem tivemos mais uma prova concreta de que o corporativismo na política é uma das maiores causas da impunidade no Brasil. Outra, é o foro privilegiado: além de responder no Supremo onde as chances de prescrição são quase certas, alguém pode ser julgado, ou no caso das acusações contra o Ilegítimo Michel Temer, ter a autorização de investigação julgada, por seus próprios colegas.

É o tipo de privilégio descabido que cria uma casta superprotegida de eminências políticas, praticamente intocáveis à lei, não importa os seus crimes nem o tanto de evidências devidamente levantadas contra eles.

Ontem à noite os portais de internet já noticiavam que o rato escapara de mais outra ratoeira. Dessa vez, com a ajuda dos amigos e correligionários no Congresso. Da pergunta “você é a favor do parecer da CCJ que determina o arquivamento das acusações contra presidente da República”, mais da metade dos deputados votaram pelo “SIM", notoriamente a bancada evangélica e os latifundiários. Muitos deles seduzidos por benesses e verbas do próprio governo.

Às vezes não conseguimos captar a essência exata de tamanha sandice. Por estarmos já anestesiados contra as bandidagens do sindicato de ladrões que tomou conta dos três poderes, não prestamos atenção no quão mais esse ato foi  indigno. Para nos ajudar a entender um pouco melhor, vamos recorrer a um artifício filosófico chamado “reductio ad absurdum”, que, dentre outras coisas, se refere a um tipo de argumento lógico no qual alguém assume uma ou mais hipóteses e, a partir destas, deriva uma consequência absurda ou ridícula, e então conclui que a suposição original deve estar errada.

Vamos ver alguns exemplos fictícios baseados no que aconteceu ontem no Congresso Nacional, através de algumas notícias falsas, pra entendermos como seriam as coisas se aquele corporativismo pudesse ser aplicado na sociedade de modo geral:

“Eike Batista escapa de prisão depois da votação na assembleia da ANP”

RIO - Direto da redação

O megaempresário Eike Batista, já acusado em crimes financeiros, escapou de ser julgado pelos crimes de corrupção ativa por ter pago pelo menos 16 milhões em propinas ao ex-governador Sérgio Cabral. Durante deliberação na Agência Nacional do Petróleo, ficou decidido que o ex-dono da petrolífera OGX não pode ser condenado, pois isso poderia afetar o preço do petróleo no momento em que o país experimenta alguma estabilidade no setor. Com esta decisão, a Lava Jato não poderá prendê-lo e Eike estará livre para voltar aos Estados Unidos, onde foi capturado.

Suspeito de matar e torturar estudante, Fernandinho Beira-Mar é inocentado por Tribunal do Tráfico

RIO – Seção Baixada Fluminense

O traficante Fernandinho Beira-mar, acusado de homicídio triplamente qualificado pelo assassinato do estudante Michel Nascimento dos Santos, teve seu caso analisado pelos traficantes do Tribunal Paralelo do Tráfico (TPT) em Duque de Caxias. Depois de se reunir com o acusado, que ofereceu um jantar de luxo para os colegas 24 horas antes do julgamento, além de prometer verbas e armas para as futuras incursões dos traficantes nas comunidades rivais, os membros do tribunal arquivaram o processo, que impede que o Conselho de Sentença do 2º Tribunal do Júri da Capital possa condenar o traficante a 30 anos de prisão. Fernandinho Beira-mar deu uma entrevista coletiva depois da decisão e disse que a justiça prevaleceu no país.

“Acusado de mais de 37 estupros, Abdelmassih tem processo arquivado pelo Conselho Federal de Medicina”

SÃO PAULO – Sucursal.

O médico ginecologista Roger Abdelmassih, acusado de quase 40 estupros no exercício de sua profissão, teve ontem o pedido de investigação recusado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Depois de analisar as provas reunidas pelo Ministério Público, os conselheiros médicos chegaram à conclusão que não haviam provas suficientes contra o ginecologista. Com isso, o inquérito foi arquivado e não poderá ser julgado pela justiça. Não cabem recursos.

*  *  *

Todas essas manchetes, fictícias, seriam absurdas e causariam revolta, todos vamos concordar. Como alguém pode ser julgado pelos próprios colegas, ou ter a possibilidade de julgamento na justiça impedido pelos mesmos, como foi no caso do arquivamento das acusações contra Michel Temer?

Se todas essas manchetes especulativas causariam revolta, por que não a próxima, esta sim, verdadeira?

Congresso Nacional arquiva processo contra Michel Temer

Brasília – da Redação

Na tarde-noite de ontem deputados federais votaram contra o prosseguimento das investigações contra o presidente Michel Temer. Com o resultado o Supremo Tribunal Federal fica impedido de julgar o caso.

Embora a acusação fosse de corrupção, muitos deputados preferiram absolver o presidente com base na continuidade da estabilização da economia.

Temer passou a noite anterior com deputados, especialmente da bancada ruralista, prometendo verbas na casa de 9 bilhões para o setor. Também ofereceu um jantar a alguns parlamentares, onde não se discutiu a votação, mas ficava implícita a insinuação de apoio.

Depois do arquivamento, Temer fez um pronunciamento em que disse que “a rejeição da denúncia é uma conquista do Estado democrático”. 

Existe alguma diferença?

31 de julho de 2017

Por que as mudanças nas leis trabalhistas vão ser um tiro no pé do empresariado e do governo

31 julho 0

Tiro no pé

Hoje, os empresários brasileiros estão rindo à toa com as reformas trabalhistas, dando brindes de champanhe em seus escritórios pelas novas regras aprovadas de forma apressada pelo governo e que, na prática, representam a destruição da segurança do trabalhador através da intermediação do Estado na relação entre empregado e empregador. E não é para menos. Afinal, das onze principais mudanças levantadas pelo site da EBC, todas representam algum tipo de perda de direitos do empregado.

Empresários capitalistas têm como base o lucro extraído do maior preço cobrado por seus produtos em relação ao menor investimento possível em salários, encargos e outras despesas. Mas, para isso, deve haver um equilíbrio. Quando se mexe de forma radical nessa delicada relação entre o que se “gasta” com o trabalhador e o que se lucra, o que hoje parece vantagem amanhã pode ser um desastre.

Quando a crise internacional de 2008 chegou ao Brasil, o presidente Lula tinha duas opções: propor as medidas draconianas e burras de austeridade, congelamento de investimentos e afrouxamento das leis das relações de trabalho, como queriam o empresariado, ou ir na contramão da cartilha neoliberal, incentivando o consumo de bens e serviços internos, para aquecer a economia. Ele ficou com a segunda opção.

Conclusão: nunca o país experimentou um momento de bonança tão grande como aquele, em que, sem mexer nas leis trabalhistas, o país cresceu, o desemprego caiu e os setores primário, secundário e terciário da economia nunca tiveram tanta prosperidade. O trabalhador estava empregado, estava seguro, e a economia girou perfeitamente.

Qual é o cenário de hoje? Aquele que os empresários queriam que fosse a resposta para a crise de 2008 que não veio, mas que foi dada agora quando, primeiro Dilma e depois Temer, implementaram as tais medidas de austeridade que o Lula recusou. O Brasil atolou na crise e criou o cenário perfeito para tirar direitos sob o pretexto de “modernizar” a economia, ou seja, propor remédios para a doença que eles mesmos causaram.

Mas a reforma trabalhista significa um tiro no pé para o empresariado. A longo prazo, surgirá uma legião de trabalhadores desamparados e sem confiança no dia de amanhã. Vamos lembrar que no governo Lula, quase 100 por cento da linha branca, ou seja, fogões, geladeiras, micro-ondas, ar-condicionados, entre outras coisas, foram compradas à prazo. Quem se arriscaria, a partir de agora, a comprar não só bens da linha branca, como casa, carro, móveis, ou qualquer outra coisa à prazo, sem saber se, amanhã, ele poderá ser mandado embora com uma mão na frente e outra atrás? E o lazer, o cinema, o shopping, o passeio no parque, como vai ser, ganhando menos e trabalhando mais?

No final das contas, tudo o que o empregador pensou que ia ganhar tendo menos despesas com o funcionário vai ser perdido quando este mesmo funcionário, que precisa comer, se divertir, se vestir, ou seja, consumir, perder a segurança no seu emprego, e passar a pensar cada vez mais no hoje e menos no amanhã. Como resultado, a economia não vai crescer, novos empregos não serão criados, e os desempregados dispostos a ganhar menos serão contratados no lugar daqueles que agora já não consomem por falta de segurança, agravando ainda mais o problema num círculo vicioso, até que algum gênio da lâmpada perceba que esta reforma trabalhista é um mal para o país que precisa ser revogada.

Getúlio Vargas já sabia o nível de estupidez da classe empresarial brasileira. Já naquela época, eles reclamavam das medidas a favor do trabalhador que deram na Consolidação das Leis do Trabalho, esta mesma que acaba de ser destruída pelos bisnetos daqueles empresários.

Getúlio Vargas já sabia naquela época o que os empresários não souberam enxergar: trabalhadores explorados não podiam dar em boa coisa pra ninguém, nem para eles, nem para os empresários, e nem para o país.  Uma lição que três gerações de empregadores ainda não aprendeu.

24 de julho de 2017

O dilema eleitoral de Jair Bolsonaro que o impedirá de ser presidente do Brasil

24 julho 5

IMAGEM FODA

setores dos mais diversos espectros ideológicos do país já se preocupam com a possibilidade do polêmico deputado Jair Bolsonaro angariar um número de votos avassalador nas próximas eleições, algo que lhe permita ter condições reais de se eleger presidente da República. Para mim, no entanto, essa possibilidade não existe.

As chances de Jair Messias Bolsonaro envergar a faixa presidencial no próximo mandato são as mesmas que o outro malucão reacionário defensor da família tradicional e da pátria amada, Enéas Carneiro, tivera antes dele, ou seja, nenhuma.

Para uma pequena parcela da extrema direita brasileira, famílias conservadoras de base católica em fase de extinção, Bolsonaro é sim o seu representante legítimo. Votam nele com convicção e corroboram todos os seus preconceitos.

Para um outro tanto de eleitores, no entanto, o “bolsomito” é uma figura caricata, personagem que uns levam a sério, outros não. Apoiam o deputado porque também são machistas e não gostam de “esquerdistas”, mas essa parcela representa, no que eu posso perceber, jovens de classe média ou jovens da periferia urbana sem instrução e conhecimento político, ou seja, outro pedacinho da fatia do eleitorado.

Mas o que a grande maioria esmagadora de eleitores, aqueles de centro, sem paixões ideológicas exacerbadas sente mesmo por ele é uma tremenda rejeição, que, pela minha percepção, ainda vai crescer muito conforme as pessoas o forem conhecendo melhor.

O dilema: por que Bolsonaro está numa sinuca de bico

Digamos que, tal como Lula em 2002, Bolsonaro resolva contratar um marqueteiro para dar um upgrade na sua imagem negativa. A partir de então, surgiria um Bolsonaro repaginado, suavizado, sem aquele corte de cabelo à la Hitler e com todos os seus comentários fascistas do passado, em cada nova entrevista, relativizados. O que será que aconteceria? Fácil de prever.

Certamente Bolsonaro, nesse caso, ganharia o apoio de alguma parcela do eleitor centrista, mas obviamente perderia muito mais dos seus fiéis defensores radicais da extrema-direita. Talvez a troca não compense.

Então, ele resolve partir para a disputa do jeito que sempre foi, travestido de general anacrônico da Ditadura, um fóssil vivo de épocas vergonhosas. Bom, neste caso, seu pequeno eleitorado orgulhoso se manterá fiel, mas insuficiente para uma vitória, exatamente como Enéas nas três eleições presidenciais que disputou.

Existe alguma chance de Bolsonaro ser o presidente do Brasil?

Eu diria somente se, por uma outra aberração política inimaginável, mas que tomaremos aqui como hipótese, Jean Wyllys surgisse com reais chances de vitória na eleição. Isso porque o deputado do PSOL, homossexual, negro e “esquerdista”, carrega em si mesmo o alvo de quase todos os principais preconceitos do país e ainda mais rejeição do que o próprio Bolsonaro. Nessa estranha relação dialética que Bolsonaro e Wyllys mantêm entre si, a vantagem ainda seria do reacionário de direita.

Leia também: A falsa simetria entre Bolsonaro e Jean Wyllys

Mas, numa disputa realista, com Marina Silva, João Dória, Alckmin e Ciro Gomes (um pouco menos), todos comportados garantidores dostatus quo e do clima de paz e estabilidade que a alta burguesia precisa para o seus negócios, e não os extremismos radicais — que Donald Trump implementa nos Estados Unidos e já faz o país se arrepender, por exemplo — Bolsonaro seria vítima do seu próprio dilema.

Por isso, eu fico absolutamente tranquilo quanto à possibilidade de sua eleição. Nem as classes dominantes deste país chancelariam tamanha aventura. 

12 de julho de 2017

Lula condenado à prisão. Lava Jato encerra último ato de sua ópera bufa

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Aécio, o protegido da justiça

Enfim, todo o processo da Lava Jato, que (não) por acaso, começa a ser desmontado com o fim da exclusividade de delegados da Polícia Federal envolvidos nas investigações, chega a seu ápice, sua razão de existência: a condenação do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva a 9 anos e meio por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

E esse foi o resultado de apenas um dos processos, o referente ao chamado “triplex do Guarujá”, a reforma do apartamento feita pela empreiteira OAS que caracterizou a corrupção ora condenada pelo juiz Sérgio Moro.

Lula ainda pode e certamente recorrerá da sentença, mas podemos adiantar aqui, mesmo sem bola de cristal, que perderá também em segunda instância.

Isso não significa que o ex-presidente será encarcerado, sonho de uma parcela da população brasileira que tem verdadeira ojeriza não só ao ex-torneiro mecânico sem o ensino básico completo que chegou ao poder, mas a tudo o que ele representou durante o seu governo: a ascensão de amplas parcelas de miseráveis e pobres ao nível de consumo e de educação, uma população que o sociólogo Jessé Souza provocativamente chamou de ralé, e que historicamente tem merecido o desprezo das camadas sociais de cima.

Não, Lula não será preso. Até pela sua idade, já acima dos 70 anos. Mas para os fins da Lava Jato, isso não importa. O que é realmente importante é a condenação em segunda instância, com previsão de ser analisada daqui entre seis e nove meses, que já seria o suficiente para impedi-lo  de concorrer à presidência da República em 2018, com base na Lei de Ficha Limpa.

O repórter da Globonews, agora há pouco, nem teve a discrição de ocultar as verdadeiras razões do impedimento do ex-presidente. Não foram os lamentáveis mal feitos que Lula infelizmente se envolveu. Segundo disse no ar, ao vivo, o Lula de hoje não é o “Lulinha Paz e Amor” que venceu as eleições de 2002 e 2006. Suas opiniões têm sido bastante contundentes, o que colocaria em risco, segundo alguns analistas, todos os ganhos políticos da burguesia nesse período de vandalismo praticado pelo parlamento e o governo federal contra os direitos dos trabalhadores, e isso estava “assustando o mercado financeiro”.

A confirmação dessa ideia veio logo depois ao anúncio da sentença, com a Bovespa disparando e o dólar caindo vertiginosamente — sinais típicos do “bom humor do mercado”.

Não sei se teremos panelas comemorando a condenação do Lula nas varandas ou passeatas da burguesia verde e amarela na avenida Paulista, pois até para eles existe o constrangimento do descaramento que é a justiça brasileira, com seus dois pesos e duas medidas, dependendo do réu. Há meses o rato que ocupa a presidência da República consegue escapar de todas as ratoeiras colocadas pelo caminho com ajuda essencial de um STF que de vez em quando desarma algumas delas, enquanto o playboy mineiro mais delatado do Brasil, aquele que combina recebimento de propina e que manda matar se o seu testa de ferro for capturado, vai contando com a impunidade garantida especialmente por um correligionário político travestido de ministro do Supremo, pronto a libertá-lo das garras da lei sempre que necessário.

A única coisa realmente positiva de todo esse circo armado com o intuito de tirar o Lula da eleição de 2018 é que assim uma esquerda independente e moralmente isenta de qualquer promiscuidade com esses acontecimentos lamentáveis pode surgir, bater no peito e dizer que o lulopragmatismo, ou seja, o modelo lulista de governar se imiscuindo com o que há de mais podre na política, não cabe a ninguém da esquerda. É imoral e foi um erro. Novas lideranças podem assumir esse vácuo, de uma forma a juntar os cacos de confiança e esperança dos eleitores que o PT quebrou e espalhou por aí, e assim construir uma nova realidade para o nosso país. Aprender com os erros que o PT até hoje se nega a admitir, e saber que a luta de classes não permite concessões ao inimigo, a quem hoje está fraco mas que amanhã, com a sua própria ajuda, pode se reerguer, se virar contra você e te jogar no limbo, que é onde estão hoje Lula e o PT, depois de fazer alianças com quem deveria ter esmagado quando podia.

Façamos do pensamento do polêmico escritor russo Vasily Rozanov um guia nessa era pós-Lula: “das grandes traições iniciam-se as grandes renovações”.

6 de julho de 2017

Qual tem sido o papel do PT diante do governo e da crise política atual?

06 julho 0

O Partido dos Trabalhadores foi, sem sombra de dúvidas, o maior prejudicado pela campanha reacionária que ficou ainda mais atuante no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Desde a vitória eleitoral questionada no Tribunal Superior eleitoral, passando pela tática de obstrução de governabilidade promovida pelo Congresso, até a aceitação da acusação, votação e condenação da presidente num Impeachment golpista, o PT foi atacado por todos os lados, na política e na opinião pública através de uma imprensa corporativa hostil. Era natural, portanto, que o partido fosse uma das vozes mais atuantes no atual momento de crise política vivido pelo governo usurpador e seus aliados políticos. Mas é isso que estamos vendo?

Estranhamente, não.

Mesmo que alguns militantes, sindicatos e movimentos sociais ligados ao partido estejam nas redes sociais e nas ruas engrossando o “Fora Temer”, a alta cúpula do PT resolveu contemporizar com os seus notórios algozes.

E isso já ficou claro desde o princípio deste ano, quando o próprio ex-presidente Lula se colocou à disposição de Michel Temer para dialogar soluções políticas para a crise, atitude que ultrapassou qualquer cordialidade republicana.

Veja em: Lula dá conselhos a Temer e diz estar à disposição para diálogo: ‘Me chama’...

Temer visita Lula

O líder do PT na Câmara dos Deputados, Carlos Zarattini (SP) teve uma postura ainda mais surpreendente mês passado. Diante da enxurrada de evidências contra o senador Aécio Neves reveladas recentemente — um dos maiores algozes do PT e aliado do governo golpista — o deputado petista afirmou que “não podemos torcer por um ataque sem nenhum princípio às pessoas”.

Leia mais: ‘Torcer pela prisão de Aécio é equívoco’, diz líder do PT na Câmara

Ainda no mês de junho, o Partido dos Trabalhadores lançou uma nota contra a Lava Jato e a Procuradoria Geral da República, no exato momento em que ambas voltam suas baterias contra Aécio e Temer. Fato intrigante e curioso é que, em seu pronunciamento logo após ser denunciado por Rodrigo Janot, Michel Temer tenha feito a mesmíssima insinuação que Lula fizera mês passado, fazendo alusão a um procurador muito próximo de Janot que fora preso, para criticar os métodos da PGR.

“Eu não sei se o procurador-geral da República, que tinha um amigo procurador que foi preso, e que ele até pediu desculpa na televisão, ficou chateado porque o procurador era amigo dele, queria fazer jantar para o procurador, o procurador fazia jantar para ele, não sei se a teoria do domínio do fato vale pra ele, se ele sabia que o cara era ladrão” (Luis Inácio Lula da Silva. fonte: valor.com.br)

Além disso tudo, Dilma Rousseff, que poderia ser uma voz de legitimidade no meio do caos político que se instalou no Brasil pós-Impeachment, resolveu ficar totalmente longe dos holofotes.

No seu sexto Congresso realizado em junho, que elegeu Gleisi Hoffman como a nova presidente do partido, o PT lançou uma nota bastante crítica ao governo, ao cenário atual e propôs algumas medidas bastante progressistas. Mas diante deste cenário, como não pensar que todo esse discurso não faz parte de uma estratégia que o filósofo Vladimir Safatle classificou corretamente como “A estação das cerejas vermelhas”? Fora do poder, ou em campanha presidencial, o PT faz um belo discurso de esquerda, mas suas ações na prática não corroboram as intenções.

O PT e sua ambiguidade tem feito muito mal às esquerdas. Sobre a possível admissibilidade de acusação contra Temer na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara, o jornalista Fernando Rodrigues afirma que

…o PT mostra ambiguidade. Chama a atenção que ninguém relevante do partido esteja à frente de 1 grupo para arregimentar deputados a favor da denúncia. Há algumas iniciativas, mas nenhuma “mainstream” que possa ser considerada uma movimentação orgânica e centralizada.

Ainda existe muita, muita gente boa e bem intencionada nos quadros petistas. Mas por uma série de fatores difíceis de compreender, estes militantes não são capazes de se desvencilhar da crença cega nos membros do alto escalão do PT, que não praticam o que pregam. Para estas pessoas, e para o bem da esquerda no Brasil, o PT deveria abrir mão de lançar candidato em 2018, fazer parte de uma ampla coalização nacional sem o intuito de liderá-la, e dirigir o seu capital eleitoral formado por estes petistas de bem para uma outra liderança, jovem, verdadeiramente comprometida com o nosso lado na história.

Não dá pra cair 5 vezes no conto do PT como partido progressista de esquerda.

30 de junho de 2017

Esquerda não tem nome a propor numa eleição direta

30 junho 2


Lenin

Quando eu estava na faculdade, numa aula de sociologia, houve o debate sobre as novas formas de movimentos sociais. Na onda da queda de prestígio e representatividade dos partidos políticos, muitos estavam felizes com as novas formas de protestos e de movimentos sociais descentralizados, sem uma liderança clara e assumida, tendo a Aliança Zapatista de Libertação Nacional (AZLN) e seu relutante líder, comandante Marcos, como modelo ideal. Hoje vemos que esse tipo de mobilização não deu os frutos que se esperava.

A famosa Primavera Árabe causou revoltas “populares” que tinham como finalidade “tirar ditadores do poder” mas que no fundo não passaram daquilo que é conhecido como revoluções coloridas, cujo resultado foi guerra civil e ascensão de grupos radicais como o Estado Islâmico.

Nos Estados Unidos o Occupy Wall Street prometia ser um marco na luta contra a poderosa influência do setor financeiro naquele país, cuja quebra da economia em 2008 levou milhões ao desemprego. No entanto, sem um foco e uma bandeira definidos, hoje não tem a menor representatividade. E assim tem sido na Ucrânia, tendo como consequência o surgimento de grupos fascistas, na Venezuela, cuja mobilização favorece uma classe média altamente reacionária que não aceita a ascensão dos pobres, e assim por diante.

No Brasil, a onda de protestos começou em 2012 com manifestações contra o aumento das passagens e englobou tantas reivindicações, tão contraditórias entre si, que foi fácil para uma determinada camada social com o apoio da mídia direcionar o foco para a crítica interesseira ao governo Dilma. Assim a classe média reacionária brasileira também assumiu as manifestações com suas próprias demandas, e as legítimas exigências de reformas ficaram no caminho.

Com a crise prolongada causada por um Impeachment golpista e mal ajambrado, setores das camadas sociais progressistas e de trabalhadores, que andavam afastados das ruas, começam a voltar timidamente. Mas quais são as suas bandeiras? Quem lidera o movimento?

Parece que o grande consenso dos partidos de esquerda, dos movimentos sociais e dos trabalhadores organizados é o inócuo “Fora Temer” e suas reformas draconianas. Mas aí está o cerne da nossa crise, do por que as massas não estarem envolvidas nas ruas nos protestos. Sai Temer, entra quem? Em nome de que causas? Em nome de quem?

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Sem liderança, os protestos no Brasil não têm futuro

Infelizmente, por conta da onda de manifestações descentralizadas, sem uma liderança clara, que engloba demandas não muito específicas e aliada à crise de representatividade dos partidos nestes tempos de pós-modernidade, não foi possível forjar uma liderança que guiasse e reunisse os anseios da massa de cidadãos, aquele que simbolizasse a esperança de um novo caminho. Você olha as manifestações e não é capaz de encontrar alguém que possa dizer: “este é o caminho, vamos juntos construir um novo modelo de país”.

A narrativa que impregna o senso comum de que todo político é igual, que a corrupção generalizada está em todos os partidos e que ninguém escapa faz muito mal ao Brasil, e nisso a imprensa tem uma responsabilidade muito grande. Na TV, vemos todos os dias listas de partidos que receberam “doações”, caixa 2 e participaram de esquemas de propinas em obras, onde os destaques são sempre PT, PSDB e PMDB, junto com outros que engrossam a lista. Mas veja como também seria um serviço ao país uma reportagem que dissesse: “Agora vamos mostrar também a lista dos partidos cujos políticos jamais apareceram em nenhuma lista de corrupção e propinas da Lava Jato”. Eles existem e estão aí, mas ninguém fica sabendo.

O que falta para que a população brasileira de modo geral, e não apenas seus setores organizados se engajem mais nas mudanças que o Brasil precisa promover é aparecer uma liderança. Sem um símbolo — a direita sabe disso e na falta de um, construiu o seu “caçador de marajás” nas eleições de 90, entre outros casos — as demandas dispersas não atingirão o núcleo do poder no Brasil, antigo, organizado e coeso, sempre pronto a defender seus próprios interesses, embora hoje não saibamos se é manter Temer ou tirar Temer. A própria direita se encontra dividida, mas a única coisa que sabemos é que ela sabe quem colocar para defender os seus interesses, caso Temer venha a cair. E nós, quem é o nosso representante?