Para quem odeia o Brasil

Complexo de Vira Latas

Iracema era jovem e bonita em seus tempos áureos, tinha filhos saudáveis e vivia uma vida não de luxo para os padrões modernos, mas de muita abundância numa terra repleta de riquezas naturais. Não lhe faltava nada.

Até que ela conheceu Pedro, já um senhor de idade avançada, que veio de terras distantes e que tinha bastante cobiça em sua personalidade.

Pedro trouxe na bagagem uma nova religião e costumes ditos “civilizados”. Iracema, que até então vivia uma vida sem pecados, conheceu a repressão e o recato. Ambos casaram e tiveram novos filhos.

Os antigos filhos de Iracema foram renegados e colocados em segundo plano, considerados indomáveis e incultos. Sem que ela percebesse, Pedro também enviava muito de suas riquezas para a terra distante do qual provinha.

Com o passar do tempo, Iracema foi ficando cada vez mais pobre. Pedro, por sua vez, enriquecia cada vez mais. Com as riquezas de Iracema, acumulou capital suficiente para abrir fábricas em sua terra natal, depois indústrias, e hoje empresas muito bem sucedidas, que deixaram o seu país muito rico.

Quem olha hoje o contraste entre a pátria de Pedro e as terras de Iracema, jamais poderia imaginar que na raiz de tamanha diferença estão anos e anos de espoliação e roubo. Hoje parece muito natural que seja assim, que haja essa diferença gritante, tanto que diversas teses “científicas” querem nos fazer crer que a pobreza dos descendentes de Iracema, hoje, é fruto de sua indolência inata e incapacidade de ter um raciocínio econômico, enquanto que a riqueza do país de Pedro só pode ser explicada pelo empreendedorismo e pelo mérito dos homens de negócios racionais. Assim também, infelizmente, pensam os próprios netos de Iracema, que não conhecem o passado.

Muitos deles que vivem aqui nas terras pobres e espoliadas da sua ancestral também não conhecem a verdadeira história. Vivem falando mal dos seus irmãos locais, acham que eles são preguiçosos e acomodados, “não tem aquela civilidade e cultura dos homens lá do exterior”. Pensam que tudo de ruim faz parte quase de um tipo de gene do fracasso gravado inexoravelmente no nosso DNA. E assim sonham se mudar, viver nas terras onde a riqueza se encontra. Acham os seus irmãos daquelas terras distantes mais cultos e educados do que seus irmãos daqui.

Ahh se eles soubessem que toda essa educação, toda essa riqueza e essa cultura que eles têm foram pagas com o sangue e o suor dos seus antepassados espoliados…

Ahh se eles soubessem a verdadeira história… Talvez não fossem tão alienados, a ponto de amar os descendentes e as terras daqueles que o fizeram estar nesta posição desqualificante de hoje. São a causa de sua miséria.

Ahh se eles apenas soubessem… Não seriam tão injustos e sem orgulho próprio como são hoje.

Bem vindo às trevas: deputado quer lei contra masturbação

ticão

O século XVIII foi uma época de importantes acontecimentos ligados à contestação de mitos e crendices arraigados nos costumes, uma era em que a Razão se solidificava de vez na consciência humana. Mas não só de conhecimento e ciência viveu o Século das Luzes, pois a mesma era que nos deu, entre outros, J-J Rousseau e Voltaire, também nos daria um Tissot.

Nascido em Genebra como Rousseau, em 1728, Samuel Auguste David André Tissot — mais conhecido como S. A. Tissot — foi criado pelo tio pastor, e tornou-se médico. Ficou famoso pelas suas habilidades terapêuticas, principalmente no tratamento da varíola, quando centenas de pessoas influentes do continente europeu iam lhe fazer uma consulta.

Com a fama, passa também a ser escritor. Sua escrita é dirigida ao povo em geral, com linguagem simples, e assim atinge uma enorme popularidade. Escreve sobre diversos assuntos da medicina, sobre febres, dores de cabeça, epilepsia, etc.

Mas nenhuma obra teve tanto impacto duradouro como o De l’onanisme ou De maladies produits par la masturbation (Do onamismo ou das doenças decorrentes da masturbação).

“Tissot inaugura duzentos anos de obscurantismo, desencadeando a repressão sexual, repressão dos impulsos apenas nascentes, culpabilização do sexo no que ele tem de mais ‘inventivo’, de mais natural, de mais necessário: a masturbação”1

Você, meu caro amigo, há de pensar: “que bom que essas coisas aconteceram há muito tempo, hoje em dia as pessoas estão mais evoluídas, menos obscurantistas e ignorantes, aqueles tempos ficaram pra trás”.

Pois pense de novo.

Eis que as notícias do momento dos principais veículos nos dão conta de que um deputado federal do DEM de São Paulo, chamado Marcelo Aguiar, vai produzir uma cruzada moralista contra a pornografia e a masturbação. O nobre político apresentou um projeto na Câmara propondo que as operadoras de telefonia criem uma maneira de vetar “conteúdos de sexo virtual, prostituição e sites pornográficos”.

Marcelo Aguiar

Ele afirma como justificativa que “há viciados em pornografia e masturbação”, colocando-os no mesmo patamar de drogados com entorpecentes. Nos moldes da fracassada “Guerra contra as drogas”, ele quer que o Estado promova uma “Guerra contra a punheta”, com direito a soldados do BOPE invadindo barracos na favela em busca de… mãos peludas…

Valendo uma mariola: o distinto deputado é evangélico: sim ou com certeza?

Quase 300 anos depois, um deputado evangélico brasileiro vem repetir uma tese ultrapassada, ultramoralista, carola, ridícula e inútil. Era para causar gargalhadas gerais, ser piada nacional — como seria em países desenvolvidos que deixaram esse obscurantismo religioso ridículo no passado, vivendo hoje uma sociedade verdadeiramente laica. Mas não… não no caso do Brasil.

Aqui existe uma simbiose cretina e criminosa entre uma parcela conservadora da sociedade, suas opiniões absurdamente preconceituosas e obsoletas e seus representantes políticos, que já descobriram o canto da sereia para seguidas reeleições: basta mencionar algumas palavras-chave e bordões prediletos dessa classe reacionária, como: “em defesa da família”, “pelos valores cristãos de nossa sociedade”, “a favor da vida” (em caso de ser contra o aborto); “a favor de cadeia para menores e pena de morte” (caso algumas destas infelizes crianças caiam nas diversas tentações que a vida abandonada lhes proporcionará). E aí não custa nada algum malandro como esse deputado pegar isso e criativamente levar adiante com novas interdições, como recriminar o prazer da punheta. Pronto, é música para os ouvidos carolas da sociedade patriarcal burguesa.

O Brasil entrou numa espiral de retrocessos inacreditáveis.

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1 BRENOT, Philippe. Elogio da Masturbação. Rio de Janeiro, Record:1998

Ano novo, presidente novo

Temer e sua faixa presidencial

Mais uma vez, neste país, sofremos as consequências da insanidade de grupos dirigentes, que, defendendo os interesses econômicos do grande capital ao qual estão ligados de forma subserviente, são capazes de jogar o país todo dentro de um buraco sem fim — e com eles junto.

Tirar a Dilma através de um nítido golpe parlamentar para colocar o mesquinho, pequeno e incompetente Temer no poder, só para implementar as políticas neoliberais goela abaixo do povo — as mesmas que as urnas rejeitavam por quatro eleições seguidas — foi um ato de estupidez política que só os liberais conservadores poderiam cometer. A “Ponte para o Futuro” está podre, ruindo de velha, cheia de ratos, buracos e rachaduras, mas o condutor insiste em passar com o trem por cima dele. Se ninguém pará-lo a tempo, o trem do Brasil vai pro buraco de vez.

O inconformismo com o governo usurpador está por todos os lados. Desde juristas até movimentos sociais do campo gritam nas ruas o Fora Temer, e também levantam uma nova bandeira que parecia estar esgotada, mas que ressurge como uma grande possibilidade: as Diretas Já.

Esgotada porque, de acordo com a Carta Magna, a possibilidade de convocar novas eleições com a provável queda de Temer se encerraria no ano que passou. A questão é que o artigo 81 da Constituição Federal de 88 diz que, em caso de vacância do cargo de presidente na segunda metade do mandato, o novo chefe do Executivo deve ser eleito indiretamente pelo Congresso para exercer um mandato-tampão. Mas existem outras possibilidades na área jurídica que mantêm as Diretas na pauta.

Umas delas é uma ADIn (Ação Direta de Inconstitucionalidade) que tramita no Supremo. Caso seja condenado pela Justiça Eleitoral, Temer seria cassado e abriria a possibilidade de novas eleições, se ele fosse julgado e condenado até seis meses antes do fim do seu mandato.

A outra é um processo que tramita no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que pode vir a cassar a chapa Dilma-Temer. Deve ser julgado neste primeiro semestre.

A única certeza que nós temos é que o Brasil está acéfalo. Temer, o pequeno, não tem legitimidade para conduzir o país neste momento de crise, agravada por seu próprio golpe. Isso sem trazer à baila as dezenas de acusações que as delações insinuam sobre ele.

2017 começa com cheiro de luta nas ruas em nome dos nossos direitos e a possibilidade de um presidente legítimo, eleito pelas urnas.

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O que os alimentos podem nos dizer sobre a “lógica” do capitalismo

O capitalismo não tem lógica
Estou muito longe de ser especialista em Economia mas vou me atrever a fazer alguns questionamentos baseados na minha observação de como anda funcionando o mercado capitalista, no caso específico dos alimentos saudáveis. Alguns deles exigem um processamento industrial menos elaborado (e mais barato, portanto) mas tem um preço maior. Vamos ver qual é a lógica disso.
 
Produtos de maior processamento industrial deveriam refletir um preço mais caro, correto? Não na lógica mercadológica capitalista. Pelo menos quando falamos de alimentos.
 
Tomemos dois exemplos: o pão e o arroz.

No processo de industrialização do arroz branco, são removidos a casca, o pericarpo e o gérmen, sua porção mais externa. As partes mais ricas em nutrientes são jogadas fora, e o que sai da fábrica é o miolo branco rico em amido (que vira açúcar no organismo).
No processamento do arroz integral, por sua vez, é retirada somente a casca, mantendo-se o pericarpo e o gérmen, altamente nutritivos.

O processamento do pão integral é mais ou menos análogo. A farinha de trigo do pão integral contém pedaços de grãos e gérmens do trigo, que são retiradas no processo de moagem da farinha branca, utilizada no pão branco. Apesar de demandar maior tratamento industrial, o pão branco é mais barato. Qual é a lógica do mercado?
 
A conclusão que nos é legítima chegar é que o preço não é determinado pela lógica capitalista nua e crua de mercado, de custos de produção, taxa de lucros, oferta e procura, etc. Há algo de muito subjetivo nessa suposta ciência exata do capitalismo.
De acordo com o site "Guia do Marketing",
O preço do produto também deve ser definido a partir do nível de renda dos consumidores, além do quanto estes estão dispostos a (e podem, também!) pagar pelo produto/serviço. Este conceito é parte da orientação para o mercado, e a organização deve sim, considerar seus custos para produção, distribuição e divulgação do produto, mas o que determinará um preço competitivo será um que equilibra o valor percebido pelo cliente, com o preço que é cobrado. O custo passa a não ser um determinante, mas apenas mais um componente da formação do preço final do produto ao consumidor.
A partir daí podemos aferir que os produtos mais nutritivos são destinados a uma camada da sociedade que pode pagar pelo quesito "saúde" embutido no preço, não obstante o produto exija um processamento mais simples (e tenha portanto, um custo menor). Por outro lado, os produtos pobres em nutrientes, mas que exigiram maior processamento (maior custo de produção) são destinados a uma parcela da sociedade que não pode se dar ao luxo de pagar o preço da mera sugestão mercadológica de "produto saudável".

 
A mesma lógica se aplica no caso do alimento orgânico. A desculpa para estes alimentos serem até 40 por cento mais caros é que eles são produzidos em pequena escala, entrando assim na questão da lei da oferta (baixa) e da procura (alta). Mas a verdade é que bastava acabar com o lobby das indústrias de agrotóxicos e mudar o sistema agrícola no Brasil através de uma Reforma Agrária que incentivasse os pequenos produtores em vez dos grande latifundiários, para que a oferta de produtos orgânicos (livres de agrotóxicos cancerígenos) fosse a regra, não a exceção.
 
Existe uma indústria gigantesca de agrotóxicos -- entre as quais a Monsanto, que produziu o famigerado "Agente Laranja" na Guerra do Vietnã, a Syngenta, a Basf, a Bayer, a Dow e a Dupont, que juntas dominam 68% deste mercado -- ligadas aos grande produtores rurais, que envenena nossa comida, enquanto que a solução óbvia era que existissem milhares de pequenas agriculturas familiares, livres deste tipo de produto tóxico.
 
Mais uma vez a lógica estranha do mercado: milhões de reais são gastos na aquisição destes agrotóxicos (uma média de 5,2 litros de agrotóxico por habitante no Brasil) para pulverizar as imensas lavouras dos grandes produtores. Uma pequena parcela da população compra alimento orgânico, livre destes produtos industrializados, pagando quase o dobro por isso, enquanto a esmagadora maioria da população se vê sem opção a não ser comprar produtos envenenados industrialmente, porquanto mais baratos. Acredito que nenhuma ciência econômica possa explicar esse fenômeno por um viés racional, lógico e objetivo. Apenas -- como foi dito no Guia do Marketing -- pela ideia subjetiva de que "preço do produto também deve ser definido a partir do nível de renda dos consumidores, além do quanto estes estão dispostos a (e podem, também!) pagar pelo produto/serviço".
 
Uma alimentação saudável deveria estar a disposição de todos no seu preço justo de mercado e não determinada para esta ou aquela faixa de consumo. Mas esta é apenas uma das irracionalidades abomináveis do suposto "capitalismo racional" defendido por aqueles que veem seu sistema econômico desmoronar nas sucessivas crises econômicas que eles mesmos não sabem controlar.

Como o livre-mercado prejudica países em desenvolvimento: o exemplo do futebol

Seleção Brasileira de gringos

Durante muitas décadas no nosso país, vigorou na legislação esportiva a chamada lei do passe, especialmente no caso da profissionalização do futebol ocorrida na primeira metade do século passado. O “passe” era o vínculo que o atleta tinha com o seu clube de futebol, que representava, na verdade, uma posse, uma propriedade sobre o atleta.

Muitos, por um lado, passaram a ver o passe, em determinado momento em que o mundo discutia a liberalização da economia internacional por conta da queda da União Soviética, no começo dos anos 90, como uma forma de escravidão. De fato, os atletas de futebol não tinham muita liberdade de escolher onde trabalhar. O futebol brasileiro de então representava um mercado fechado, e as transferências, tanto nacionais quanto internacionais eram mais raras.

Como consequência, era normal os principais jogadores de um clube atuarem por seus respectivos times durante muitos anos seguidos, às vezes mais de uma década, enriquecendo assim o nosso produto, qual seja, o futebol nacional. Para ver Pelé, Didi, Garrincha, Leandro, Júnior, Zico, Reinaldo, Romário e tantos outros craques famosos, ninguém precisava pagar TV a cabo para assistir, por exemplo, Barcelona x Real Madrid na Liga dos Campeões. Era só comprar um ingresso no Maracanã para ver um Flamengo x Botafogo no Campeonato Carioca.

O passe representava, então, uma espécie de protecionismo, pois impedia que os clubes mais ricos do exterior pudessem usar seu poderio financeiro para retirar do futebol brasileiro os melhores atletas.

A ideologia do mercado entra no futebol

A onda neoliberal que acossou o mundo no final dos anos 80 e começo dos anos 90 chegou ao futebol para liberalizar as relações entre clubes e atletas dos países em desenvolvimento. No Brasil, esse movimento culminou com a lei 9.615/98, propriamente chamada de Lei Pelé. Com ela, foram institucionalizadas normas gerais no desporto, e dentre elas, a questão do passe.

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Na verdade, o que a Lei Pelé fez foi extinguir a Lei do Passe. Em tese, aplicando a lógica neoliberal ao futebol, quebrou-se o protecionismo, abriu-se o mercado brasileiro, e de tempos em tempos durante o ano, em situações que se chamam “abertura de janela”, os clubes europeus, asiáticos ou de quaisquer outros lugares em que a economia seja mais forte do que a nossa, vêm aqui pesquisar pra levar alguns dos nossos melhores atletas, exatamente como numa feira de domingo, pagando uma multa rescisória e levando o jogador na hora.

Além disso, a Lei Pelé permitiu a criação de clubes-empresas. Qualquer empresário, seja ele do ramo do futebol ou não, pode abrir um clube, muitas vezes que só existe no papel, para aliciar jogadores da base dos clubes verdadeiramente formadores de atletas, prometendo o caminho mais curto para a Europa. Neste exato momento existem centenas de jogadores brasileiros atuando em clubes europeus que nem sequer jogaram uma única partida pelos profissionais de nenhum clube brasileiro.

O resultado é óbvio: com os melhores jogadores do mundo, as ligas europeias e seus respectivos clubes ganham destaque mundial, arrecadam bilhões de dólares em publicidade e compra de direitos de transmissão. Os clubes brasileiros, por seu turno, padecem com jogadores medíocres, ou em fim de carreira, sem mercado lá fora pela idade avançada, que por sua vez disputam um campeonato tecnicamente pobre com estádios vazios e que, pasmem, alcança cada vez menos índices de audiência na TV. Viraram meros fornecedores de matérias-primas, exatamente como o restante da economia brasileira inserida de forma dependente no mercado mundial. Nosso país desindustrializado produz carne, soja e jogadores para o mundo.

A questão é: num mercado mundial totalmente aberto em que as relações econômicas e de poder são gritantemente desiguais, alguém sempre vai sair perdendo. E é óbvio que os clubes brasileiros, mais fracos economicamente, perdem nesta relação.

Alguém poderia alegar, não sem uma dose de razão, que jogadores são pessoas e que ninguém deveria impedir as pessoas de escolherem onde querem trabalhar, onde lhe oferecerem as melhores condições. Então eu sou obrigado a lembrar de uma das maiores ironias do capitalismo globalizado e liberalizante: produtos, capitais e serviços circulam livremente no mundo capitalista, menos… as pessoas. Ninguém é livre no mundo para atravessar fronteiras e dizer “quero trabalhar na Noruega”, ou no Canadá, ou nos Estados Unidos, ou em qualquer outro lugar. Nesse caso, em todos esses países existem leis protecionistas que inibem a imigração. Não é curioso?

Transpondo essa lógica para a economia de modo geral, se não deveríamos impedir atletas de jogarem onde quiserem, deveríamos, pelo menos, criar restrições aos produtos estrangeiros, para que nossa indústria possa crescer e produzir, competindo de igual para igual com os outros países. Os ideólogos adamsmithianos do capitalismo mundial querem nos fazer crer que o Brasil tem apenas vocação agrícola e deve se manter assim, uma eterna grande fazenda. E encontra tolos no nosso próprio país dispostos a acreditar nisso, alimentando uma dependência, um atraso e uma defasagem tecnológica que nos coloca nas trevas no grande jogo geopolítico internacional.

Como diz um grande amigo, o futebol emula a vida.

Capital x Social: uma contraposição

  comparação entre capitalismo e socialismo

Meu amigo Sandro Ataliba tem dois dos blogs que eu mais gosto de ler: Perspiciência e Esquizofrenético Blues*. Neste último, ele toca num tema que é um dos mais caros e apaixonantes para mim: a comparação entre os sistemas capitalista e socialista, onde defende o primeiro em detrimento do segundo.

Na tentativa de contrapor uma perspectiva mais realista dessa dicotomia, eu achei que um comentário na sua publicação seria pouco, por isso resolvi transformar esse saudável debate numa postagem, para poder aprofundar mais os temas levantados, como se segue.

Logo no começo, o Sandro Ataliba já deixa claro a sua preferência: “por mais que o capitalismo tenha seus defeitos, enquanto a única opção for o Socialismo, eu continuarei a favor do capital”. Nada mais justo. Todos temos o direito de optar por uma posição política ou uma visão de mundo, desde que não fira os direitos de ninguém e que melhor condiga com nossas convicções. Mas o problema — e razão desse debate aqui — é o conceito que o Sandro cria de “socialismo” para fazer o seu elogio do capitalismo.

Para ele, o socialismo é o sistema “de quem não quer se esforçar”, que não oferece conforto nem liberdade, não possibilita que as pessoas tenham produtos de qualidade, nem veículos, apenas “transportes coletivos” (que mau isso!), que oferece sempre baixos salários, sendo esse o “socialismo do dia-a-dia”, enquanto que o capitalismo é aliado da “liberdade” e da “meritocracia”. Nesse sistema, o mercado opera o milagre do bem-estar, oferecendo a possibilidade das pessoas terem até quatro televisões (?!), para assistir os canais a cabo norte-americanos, o direito de ir e vir, o turismo e telefones celulares à vontade... Quem poderia ser contra o capitalismo num panorama desses?

O problema é que esse apanhado está muito longe da realidade, e se a gente quiser enxergar os fatos com justiça tem que fugir da superficialidade.

Consumir produtos supérfluos é o sucesso?

 

Infâmias do capitalismo

Parece que meu amigo Sandro, por um lado, confunde o socialismo com as formas propagandeadas pelos suspeitíssimos veículos de comunicação do Ocidente, que colocam socialismo, marxismo, stalinismo, maoísmo e castrismo no mesmo saco, sem aprofundar as diferenças teóricas, as causas da repressão e da “falta de liberdade” na URSS, na China e em Cuba; e por outro, pega a face mais imediatista do capitalismo — o consumismo de produtos e serviços — como parâmetro de sucesso, esquecendo tudo o que o capitalismo, por seu turno, causou de destruição ambiental pela obsolescência programada destes mesmos produtos; fome pela desigualdade social que provoca; extermínio de povos pelas guerras de conquista; censura pelo medo da verdade; ditaduras para garantir matérias-primas baratas de governos subservientes;  repressão a ideologias rivais e miséria, tudo isso para que uma pequena parcela da população pudesse, dentro do que Fernand Braudel chamou de “redoma de vidro”, ter suas quatro televisões e seus três celulares. Provavelmente 80 por cento da população mundial (pra ser modesto) sob o capitalismo não compartilha essas maravilhas do sistema; outros, apenas de modo bastante superficial, como por exemplo, "ter celulares".

Segundo Sandro, no entanto, todos esses pontos negativos “não têm nada a ver com o sistema, mas com as pessoas que dele fazem parte”. Ora, mas essa lógica não deveria ser aplicada ao socialismo também? Todas as críticas ao socialismo poderiam ser perfeitamente refutadas com esse artifício. Dois pesos, duas medidas...

O que, de fato, representa o socialismo

As propostas socialistas são bastante claras e acessíveis para serem enumeradas aqui. Ao contrário do que é apresentado, o socialismo é o grande responsável por grande parte dos direitos e do bem-estar de que gozamos hoje. Basta uma leitura nos livros de História sobre a Revolução Industrial, que estabelece definitivamente o império do sistema capitalista no Ocidente, para vermos a realidade: pessoas expulsas de suas terras, obrigadas a se sujeitarem a vender sua força de trabalho nas cidades por salários aviltantes, trabalhando até 16 horas por dia em fábricas que empregavam até crianças de 6 anos, com capatazes prontos a dar chicotadas ao menor desvio, sem direitos nem benefícios, morando em casas insalubres, sem tempo de ter educação e muito menos lazer...

Se não fosse a organização dos trabalhadores em torno dos sindicatos — atacados de todas as formas pelos capitalistas, é bom lembrar — que defendiam os ideais de esquerda, como o anarquismo e o socialismo, ao contrário do que meu amigo pensa, hoje não teríamos televisão, nem carro, nem celular, porque sequer teríamos tempo. Não fosse a redução progressiva da jornada de trabalho para as atuais 8 horas, fruto das lutas socialistas, provavelmente nem ele, Sandro, nem eu poderíamos estar escrevendo nossos textos, porque além de não sabermos escrever, estaríamos enfurnados em alguma fábrica trabalhando numa situação que faria os escravos da lavoura canavieira do século XIX se sentirem abençoados por deus...

Sobre a Rússia, cujos dirigentes comunistas Sandro afirma que saíram ricos enquanto o povo saiu pobre, qualquer comparação dos dados sociais dos anos 80, década da crise do comunismo, com os dos anos 2000, vai deixar claro que a explosão de miséria da população russa começou exatamente com a implementação da economia de mercado. Aconteceu aquilo que todo brasileiro conhece muito bem: concentração de renda e o consequente aumento do abismo entre os biliardários e os miseráveis.

A preguiça está no conformismo da zona de conforto

Eu, sinceramente, não sei como duas das maiores peças de propaganda ideológica do sistema capitalista podem fazer sucesso através de correntes de e-mail: as ideias de que socialistas são jovens rebeldes e que o socialismo fomenta a preguiça, enquanto que no capitalismo, o trabalho duro e o mérito recompensam a todos... A esmagadora maioria das pessoas do mundo capitalista está apartada das “maravilhas” do capitalismo, e só por um acaso, elas também representam a classe trabalhadora, empregada ou desempregada. “Meritocracia” é um conceito tão inverossímil na realidade destas pessoas que não faz nenhum sentido pra elas. Embora o trabalho seja árduo, as recompensas ficam com terceiros...

Esses críticos do socialismo parecem que não sabem nada de Istvan Mészàros, Rosa Luxemburgo, Apolônio de Carvalho, Luis Carlos Prestes, Antonio Gramsci, Eric Hobsbawm, os novos movimentos sociais anticapitalistas, do povo francês que fez a Revolução e foi traído pelas classes burguesas, que depois fez a Comuna de Paris e foi massacrado pelas mesmas classes dominantes, mas que ainda assim lutou e conseguiu o sufrágio universal, o voto das mulheres, os direitos trabalhistas, a educação para todos... E provavelmente não sabem mesmo, mas só confirmam que a propaganda ideológica tem afetado com grande sucesso todas as camadas sociais, desde as mais altas, as verdadeiramente beneficiadas com o capitalismo, que entendem os complexos mecanismos de ganhar muito dinheiro sem trabalhar, até as camadas médias e mais baixas da sociedade, preocupadas com o imediatismo do consumo de bens supérfluos e serviços como parâmetro de bem estar. São consumidores, não cidadãos plenos que lutam pelos seus direitos. A zona de conforto do consumismo talvez seja a pior das preguiças.

Tudo o que se pode querer é uma alternativa ao sistema que hoje domina. O mundo já percebeu isso. Será que as milhões de pessoas que cada vez mais se rebelam contra o capitalismo e pedem um outro modelo no mundo, não gostam de conforto? Não gostam de bem-estar? Não gostam de liberdade? Pelo contrário, é justamente a favor de tudo isso que elas lutam. E elas sabem muito bem que isso não existe fora da redoma de vidro.

* Infelizmente, ambos os blogs mencionados aqui só estão acessíveis atualmente para convidados.

A direita brasileira duvida da sua inteligência

No episódio da votação do Impeachment de Dilma Rousseff no primeiro semestre deste ano, ganhou destaque um vídeo em que Jean Wyllys, deputado pelo PSOL-RJ, dispara uma cusparada em direção a Jair Bolsonaro, atualmente do PSC-RJ.

A justificativa para tal reação foi a constante provocação do deputado homofóbico contra Jean Wyllys. Naquela ocasião da votação, o deputado psolista fora perseguido e chamado de “viado”, “baitola” e “queima-rosca” por Bolsonaro. Quando Jean Wyllys foi seguro pelo braço, disparou a cusparada como a gota d’água de uma obsessiva perseguição que o deputado do PSC promove contra o psolista nas diversas sessões da Câmara.

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No dia seguinte ao episódio, tentando aliviar a barra do pai e incriminar Jean Wyllys, o filho do deputado do PSC, Eduardo Bolsonaro, divulgou um vídeo em que Jean Wyllys, supostamente, teria não reagido a provocações homofóbicas, mas premeditado a cusparada. Veja:

O filho do Jair Bolsonaro não se furta de manipular a ordem dos acontecimentos, além de atribuir uma legenda falsa ao deputado Jean Wyllys, que, segundo a versão manipulada de Eduardo, disse: “Eu vou cuspir na cara do Bolsonaro, Chico”.  E em seguida vem a cusparada.

Entretanto, ontem foi divulgado o resultado da perícia da Polícia Civil de Brasília sobre o vídeo, a pedido do Conselho de Ética da Câmara. Segundo os peritos, o que Jean Wyllys realmente diz, é: “Eu cuspi na cara do Bolsonaro, Chico. Eu cuspi na cara do Bolsonaro. Eu cuspi!”, depois que realmente cuspiu.

Agora, cabe ao Conselho de Ética condenar Eduardo Bolsonaro que apresentou essa estapafúrdia montagem como prova.

Mas não é a primeira vez que a direita mente, inventa, manipula e espalha mentiras. É assim que ela vive, é assim que ela cresce. O próprio Jean Wyllys é uma das vítimas preferidas dos direitistas e sua rede de boatarias de internet, que espalham frases absurdas como se tivessem saído de sua boca.

Seria cansativo enumerar vários episódios em que a direita mentiu descaradamente para ludibriar seus simpatizantes. Mas algumas são verdadeiras pérolas da maior desfaçatez, e merecem ser lembradas.

O “atentado” da bolinha de papel

Serra vítima da bolinha de papel

Num dos episódios mais ridículos, e que entrou para o folclore da política como uma das maiores farsas já produzidas pela direita, o então candidato a presidente na campanha de 2010, José Serra, foi alvo de um “terrível” ataque com uma… bolinha de papel. Nos dias seguintes, emissoras de TV dramatizaram o “atentado” chamando até peritos para dizer como uma bolinha de papel poderia matar. A única coisa que mataram foram as chances de Serra vencer a eleição.

O aborto que “mata criancinhas”

Monica Serra

Nesta mesma campanha, que caracterizou-se por um moralismo exacerbado, o tema do aborto foi uma das estratégias da direita para tentar derrotar a candidata petista, Dilma Rousseff. Entrou em cena a esposa de José Serra, Mônica Serra, afirmando que Dilma era a favor de matar criancinhas, num ridículo e falso apelo emocional, porque era a favor do aborto. O que ela não contou, foi que confessou ela mesma ter feito um aborto, durante uma aula que ministrava.

Crianças são crianças, embriões são embriões e fetos são fetos. Chamar fetos de crianças é apelar para a ignorância alheia, por falta de argumentos verdadeiros. E ter feito um aborto e chamar quem aborta de matador de criancinhas é hipocrisia cretina.

O “perigo comunista” no Brasil

Marcha da Família

Essa retórica, acreditem, vai fazer 70 anos. Quando o mundo foi dividido na Guerra Fria, a Escola Superior de Guerra (ESG, fundada em 1949) importou baboseiras estadunidenses como a doutrina de segurança nacional, e com ela veio o medo dos comunistas. A partir de então, qualquer proposta, mesmo que vinda de setores conservadores, ou progressistas, ou de centro, ou de qualquer lugar, que visasse remediar um pouco das mazelas do capitalismo, meras reformas, era tachada de perigo comunista a ameaçar os valores cristãos da sociedade.

A Guerra Fria acabou, mas no imaginário das classes médias de direita, e na falta de uma atualização maior dos conceitos, esse perigo continua, e, acreditem se quiser, transmutado nos petistas! (!!)

“Bolsa Família sustenta vagabundo”

Mãos calejadas de trabalho

Essa é uma das melhores. Coisas que as pessoas, com muita preguiça de pensar ou sem tempo pra se informar, repetem de boca cheia. Mal sabem elas que estão apenas ajudando a disseminar falácias, sendo usadas como instrumentos de terceiros.

Mais de 75 por cento dos beneficiários do Bolsa Família são trabalhadores. Usam o benefício para aumentar a renda e custear os gastos com os estudos dos filhos e alimentação.

Além disso, quase 2 milhões de beneficiários já abriram mão do Bolsa Família, por entenderem já não precisar mais da ajuda.

Agora, enquanto a direita foca suas baterias no pobre trabalhador braçal que recebe cerca de R$170,00 de ajuda pra poder comer um pouco melhor, desvia a sua atenção do “Bolsa-Banqueiro”. Ou quem sabe dos super-salários do Judiciário. Ou da imoral “Bolsa-Filha-de-Militar”, que, desde que não se case, recebe pensão do Estado. Tudo isso saindo do nosso bolso. Muito mais custoso que o Bolsa Família.

O “Kit-Gay” que vai fazer seu filho virar “viado”

Bolsonaro contra cartilha anti homofobia

Com o simples intuito de confrontar o preconceito contra a homossexualidade, o material didático que atendia os requisitos do PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) foi defenestrado em 2011 pelo lobby da direita e da bancada evangélica no Congresso. Pouco se importam com as milhares de mortes violentas que acontecem todos os anos no Brasil, por conta da homofobia. Querem continuar mantendo as pessoas na ignorância (a ignorância gera o medo, e o medo causa reações violentas) e seu direito de ser preconceituoso, nem que para isso precisem manipular a verdade sobre o conteúdo do material didático.

*  *  *

Poderíamos continuar até não acabar mais. São tantas as mentiras que a direita conta para enganar os mais ingênuos — “somos todos brasileiros, portanto todos iguais”; “direitos humanos são pra defender bandidos”; “cotas raciais reafirmam o racismo”; “não existe esquerda nem direita”, e por aí vai — mas acreditamos já termos dado uma boa ideia.

E você? Qual a sua falácia favorita?

Renan Calheiros comete crime ao descumprir decisão do STF. E abre precedente

Renan Calheiros será preso?

Segundo o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, referindo-se ao até ontem presidente do Senado, Renan Calheiros, descumprir decisão do STF é crime ou golpe.

Em entrevista à uma jornalista, afirmou que, mesmo “falando em tese” e não mencionando diretamente o nome do presidente do Senado, destituído pelo seu colega, ministro do Supremo Marco Aurélio Mello, Barroso afirmou que o descumprimento é “inadmissível em uma democracia”.

O episódio faz parte de mais uma batalha entre Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, tendo como justificativa os supostos abusos do Judiciário, que estariam extrapolando suas competências, para “atender o clamor popular que quer o fim da impunidade e da corrupção”. Os deputados e senadores responderam então com o projeto sobre o abuso de autoridade, incluído no pacote anticorrupção sugerido pelos próprios magistrados da Lava Jato.

No Congresso, a sugestão de lei com apoio popular foi alterada para incluir punições a membros do Ministério Público e do judiciário, de forma geral, que venham a usar seus cargos públicos de forma política. Desde então, há um curto-circuito entre as relações institucionais do Congresso com o STF.

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O curioso deste imbrólio realmente complicado é ver como as esquerdas têm se posicionado. Mesmo os petistas que de esquerda não têm nada, mas são vítimas do ódio burguês nacional como se de esquerda fossem, se encontram ao lado dos políticos, mesmo os reconhecidamente corruptos, como o próprio Renan Calheiros.

Mesmo que Dilma Rousseff tenha sido vítima desse suposto abuso de autoridade do judiciário no processo de Impeachment, e mesmo a Lava Jato voltando a sua mangueira agora para o PMDB, os petistas se colocam contra o suposto “abuso de autoridade” do Judiciário.

Alguns dizem que políticos devem ser cassados por políticos. Como se isso acontecesse no Brasil. As denúncias muitas vezes são contundentes, baseadas em provas, e no Congresso, o político é acolhido e a denúncia engavetada. Quantas vezes vimos isso nos últimos anos?

Outros, como uma jornalista famosa posicionada no campo progressista, dizem que o STF pretende atender as demandas da população, ouvir a “voz das ruas”. Segundo ela, o STF não deveria “atender demandas” (?) e sim “ministrar justiça”.

Mas logo se vê a falácia neste argumento. Ora, com o povo brasileiro cansado de tanta impunidade, principalmente nos altos escalões do poder, quem disse que demanda do povo não é justamente que o STF  e os demais tribunais“ministrem justiça” onde até agora só imperou a impunidade?

Agora que a Justiça resolve entrar de sola nos homens do colarinho branco, nos até então intocáveis corruptos do alto escalão, seja da política ou do setor empresarial, a esquerda vai ficar do lado de lá? Taí uma coisa que eu não estou conseguindo compreender, sinceramente.

E por fim, só uma coisa: ou tratam de pegar o Renan Calheiros e prendê-lo por desobediência, desacato, descumprimento de ordem judicial ou seja lá o que for, ou então o STF será desmoralizado perante a opinião pública.

Pior do que isso. Todo cidadão se sentirá no direito de descumprir qualquer ordem judicial, porque o Renan Calheiros é apenas um cidadão comum como outro qualquer, tendo suas prerrogativas de foro privilegiado até a página 3.

Se o descumprimento é “crime ou golpe”, como diz o ministro Barroso, não pode ficar impune.

O pluripartidarismo de araque no Brasil e nos EUA

Pluripartidarismo

Somos condicionados a acreditar desde sempre que vivemos no melhor dos regimes de poder — o democrático — onde uma gama de partidos políticos disputam em relativo pé de igualdade os corações e mentes dos eleitores, em oposição aos regimes “totalitários” de Coreia do Norte e Cuba, por exemplo. Será verdade?

Muitos partidos, uma só ideologia

Quando um país apresenta um regime político baseado em um partido político apenas, trata-se de um unipartidarismo; dois partidos antagônicos com propostas diferentes para dirigir o país, podemos afirmar que se trata de um bipartidarismo legítimo; vários partidos políticos de tendências diversas e alternância de poder são características de um pluripartidarismo, que é, supostamente, uma das vantagens do sistema democrático.

Mas quando este mesmo pluripartidarismo apresenta uma alternância entre alguns poucos partidos que revezam entre si no poder, com pouquíssimas diferenças de conduta e que na verdade seguem uma mesma linha ideológica na política e na economia, não podemos afirmar que trata-se de um sistema que disfarça a hegemonia de uma vertente política sobre as demais?

Criando dificuldade para correntes divergentes da ordem

Existem várias maneiras de se alijar a participação política no poder de partidos políticos indesejáveis para camadas das classes dominantes e sua democracia liberal-burguesa.

Uma delas é a proibição pura e simples de que existam. Foi o que aconteceu, por exemplo, no governo de Getúlio Vargas, que durante o Estado Novo instituiu o bipartidarismo, com o verdadeiro intuito de não permitir a legítima participação política das classes trabalhadoras através de partidos representativos de seus interesses; outra maneira é através do unipartidarismo oficial, como no caso dos partidos comunistas, que assumem claramente essa característica sem maiores problemas.

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Mas existe ainda uma outra forma, mais dissimulada, mais disfarçada de se implementar um regime hegemônico. Um regime que tem cara de democracia, jeito de democracia... mas que não é democracia. É o caso de Brasil e Estados Unidos e seus regimes “pluripartidários”.

Polarização não de opostos, mas de convergentes

Poucas pessoas duvidariam de classificar Brasil e Estados Unidos como países onde imperam as normas de uma razoável democracia. Ambos apresentam uma série de partidos políticos registrados — o Brasil, por exemplo, possui 33 — eleições regulares, sufrágio universal, etc. O problema é que, assim como já ocorre nos EUA há séculos, de uns tempos para cá o Brasil vinha sofrendo de uma polarização forçada entre dois partidos políticos que representam uma mesma linha, uma mesma conduta política: PT e PSDB.

Qualquer semelhança com os partidos Democrata e Republicano americanos não deve ser encarada como uma mera coincidência.

Fica claro perceber que essa situação afeta diretamente a escolha livre dos cidadãos eleitores de ambos os países. Quando esse eleitor está em dúvida e procura na mídia informações sobre candidatos a presidente da República, por exemplo, só vai encontrar informações sobre A ou B, os hegemônicos da vez. Todos os outros desaparecem do debate político. O que é uma outra forma de excluir partidos políticos sem ter que cassá-los.

Alguém poderia argumentar que esta polarização entre PT e PSDB se deu de forma espontânea pelo eleitorado brasileiro. Eu chamaria essa pessoa de iludida ou ingênua.

Esse sistema de influência que a mídia exerce já é bastante conhecido no Brasil. Em 89 ela inventou Collor, até então um ilustre desconhecido governador de Alagoas; em 92 o tirou do poder, ao incentivar aquela coisa patética do movimento dos Caras Pintadas; em 94 ela inventou o FHC, um sociólogo que ganhou notoriedade com o controverso Plano Real, no qual pegou carona; e em 2002, tendo em vista o fracasso retumbante do neoliberalismo tucano, foi obrigada a aturar o operário que ela não queria em 89, 94 e 98, mas que veio para oxigenar o executivo brasileiro e apaziguar as massas, já corroídos pela desconfiança e pela desilusão dos 8 anos desastrosos de FHC, depois de assumir compromissos com o grande capital.

Fim do “bipartidarismo” brasileiro?

Agora as elites brasileiras e seus políticos derrubaram Dilma e o PT do executivo federal, abalando a hegemonia do partido. As últimas eleições depois do Impeachment indicaram o enfraquecimento do PT, mas não o fortalecimento do PSDB, seu antagônico tradicional. Em ascensão está o PMDB, que, no entanto, encampou a cartilha neoliberal tucana de corpo e alma, mantendo intocados os preceitos da ordem política e econômica no Brasil.

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Tudo indica que, nas próximas eleições presidenciais, a mídia empresarial dominante vai manter o foco em dois concorrentes, agora ainda mais parecidos: PMDB e PSDB.

A ascensão de uma vertente crítica de oposição ao modelo hegemônico, seja de esquerda ou uma “terceira via”, representada por Ciro Gomes do PDT ou Marina Silva da Rede, respectivamente (dificilmente Lula terá condições de se candidatar pelo desacreditado PT), sofrerá para emplacar sua candidatura.

O resultado de tudo isso é que a democracia e sua característica marcante, qual seja, a alternância de poder de acordo com a vontade do povo, fica extremamente prejudicada pelo que eu venho chamando de bipartidarismo de partido único: com o apoio dos meios de comunicação, dois partidos siameses, PSDB  e, agora, PMDB, que tocam na mesma cartilha - salvo um item diferente aqui ou ali – se alternam no poder, enquanto os demais partidos e suas respectivas propostas são alijados do cenário político de forma não oficial, mas tão contundente quanto qualquer sistema unipartidário oficial.

Desde que conseguiram concretizar sua visão de mundo e seu modo de produção, derrubando o Antigo Regime e implementando a democracia de viés burguês-liberal, não obstante as conquistas políticas pontuais dos socialistas desde meados do século XIX e início do século XX, os capitalistas naturalmente acabariam impondo a sua política e suas regras faceiras, que são as mesmas em que vivemos hoje, onde um(a) candidato(a) indesejável pode simplesmente ser destituído do poder através de golpes militares ou subterfúgios ridículos como os levantados para o Impeachment de Dilma Rousseff.

Quando o povo, vez ou outra, consegue romper este sistema que foi desenhado para favorecer os herdeiros das oligarquias e das revoluções burguesas aliadas e chegar ao poder, defendendo um modelo mais voltado para os interesses da maioria, como chegou na Venezuela, na Bolívia e no Equador, por exemplo, é simplesmente massacrado com ataques verbais e ameaças.

Se este nosso sistema fosse realmente democrático, suas elites aceitariam os governos progressistas da América Latina, legitimamente eleitos pelo voto popular, como mais uns entre tantos outros possíveis no contexto da autodeterminação, em vez de criticarem os projetos sociais destes governantes.

Está provado que “democracia”, para as elites governantes de Brasil e EUA, só é democracia se for a deles, de viés elitista, corrupto, desigual e desumano, sob a qual vivemos. Também é indispensável, para esta nossa democracia, apresentar uma imagem falsa de pluripartidarismo, onde muitos partidos supostamente convivem e disputam o poder de forma igualitária, quando na verdade apenas dois – apenas um pegaria mal, pois isso é coisa de “totalitaristas” – de fato exercem o poder e tocam os mesmos projetos em benefício deste ente chamado Mercado.

Post atualizado em 30 de novembro de 2016

Caixa 2: Rodrigo Maia prepara terreno para a impunidade com freio na Lava Jato

Rodrigo Maia

Uma situação hipotética para vocês tomarem maior ciência do que, de fato, significa o crime de Caixa 2. Eu, Almir Albuquerque, resolvo ser candidato a deputado federal pelo PSOL. Além do Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos, mais conhecido como Fundo Partidário, eu só conto com parcas doações espontâneas de eleitores avulsos, pessoas físicas que se interessaram pelas minhas propostas. Com isso, eu consigo arrecadar, digamos, 100 mil Reais para a minha campanha, tudo devidamente registrado na Justiça Eleitoral. Chamemos essa prestação de contas de Caixa 1, legal e autorizada.

Outro candidato a deputado qualquer, vamos chamá-lo assim aleatoriamente de Eduardo Cunha, concorrendo por um partido maior e com mais votos na última eleição, além de ganhar já uma fatia maior deste mesmo Fundo, recebe “doações” por fora, de centenas e centenas de milhares de Reais (muitas vezes milhões), vindos de empresas privadas que também têm interesses nas propostas (simpáticas a este setor empresarial, mesmo que sejam lesivas ao cidadão) do candidato em questão. Por não haver nenhum tipo de controle sobre suas origens, as “doações” não têm limites e geralmente podem até ser fruto de lavagem de dinheiro. Esse é o Caixa 2, ilegal e totalmente desautorizado pela Justiça Eleitoral.

Quais as consequências?

É fácil percebê-las. Provavelmente, eu, candidato alinhado com os problemas diretos do eleitor, mas de um partido menor de esquerda sem nenhuma afinidade com os interesses empresariais, e, portanto, sem nenhum financiamento privado de grande vulto, não terei condições de competir com uma campanha desigual do meu adversário Cunha, perdendo para ele uma vaga no Congresso. Cunha receberá tanto dinheiro, mas tanto dinheiro, que será até capaz dele próprio financiar a campanha de outros candidatos, criando a sua própria bancada particular.

Uma vez eleito, este parlamentar, ciente do seu dever não para com o eleitor, mas para com a empresa que o financiou, fará de tudo em favor dela. Por exemplo: em 2014, o Senado aprovou anistia da multa de R$ 2 bilhões aos planos de Saúde, aplicada pela Agência Nacional de Saúde por abusos e descasos no atendimento médico. Por que os senadores, eleitos pelo povo, se alinharam aos interesses não do eleitor, como deveriam, mas empresariais e perdoaram a dívida? Será porque muitos deles receberam recursos de consórcios privados de saúde nas suas campanhas?

Tendo em vista a sanha dos investigadores da Lava Jato em cima de políticos que se elegeram com recursos indevidos em campanhas passadas, fonte de corrupção e lavagem de dinheiro, muitos parlamentares se movimentam para manobrar em favor da anistia aos crimes de Caixa 2. Crime? Há quem diga que nem sequer crime seja, como o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que afirmou na sessão de hoje, respondendo às críticas: “Não tem anistia para um crime que não existe”, já preparando o terreno para impunidade. Ontem (23/11) foi aprovado em comissão especial o relatório do pacote de medidas de combate à corrupção. Aproveitando a questão, alguns deputados sugeriram a inclusão de uma emenda marota que perdoaria todos os casos de Caixa 2 praticados antes da vigência da lei. No entanto, a tipificação dessa prática ilegal foi adiada para próxima terça-feira, talvez por conta da péssima repercussão gerada na opinião pública.

Nossos parlamentares estão com suas reputações achincalhadas na ótica da população, e não fazem nada para melhorar esse quadro. Manobrar de forma vil para burlar os delitos cometidos, promovendo a exculpação de crimes que, como vimos, têm desdobramentos graves, é mais um acinte cometido contra o eleitor. Cada vez mais, fica claro o erro cometido por alguns setores da população ao apoiar estes demagogos corruptos que se arvoram artífices da pureza na política, no ato do golpe contra o governo derrubado. São mil vezes pior.

Romero Jucá avisou, era preciso tirar a Dilma e barrar a Lava Jato. Cada vez mais a indicação do “profeta” Jucá se consolida diante dos nossos olhos. Podem investigar à vontade, pois se houve mesmo muitos crimes de Caixa 2, eles prescreverão no exato momento em que essa emenda iníqua da anistia entrar em vigor.

Até quando aguentaremos quietos esses escárnios?